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O impacto da COVID-19 na dor crónica

Os efeitos multidimensionais da pandemia podem ter tido consequências na dor crónica.

Apesar de a pandemia COVID-19 estar já a completar dois anos, ainda não se conhecem todas as consequências decorrentes das mudanças e limitações sociais a que obrigou. Uma das perguntas sobre o impacto da pandemia diz respeito aos seus efeitos na dor crónica. 

“A pandemia por COVID-19 reveste-se de características que podem contribuir para o aumento da incidência de novos casos de dor crónica ou agravamento da dor crónica já preexistente”, diz Sara Sousa Freitas, especialista em Anestesiologia e médica na Unidade de Tratamento da Dor do Hospital Lusíadas Albufeira, Clínica Lusíadas Faro e Hospital Lusíadas Lisboa.

No entanto, refere a especialista, é ainda necessário realizarem-se estudos para se compreender se existem efeitos diretos da infeção pelo vírus SARS-Cov-2 nesta patologia.

O que é a dor crónica?

Um em cada cinco europeus vive com dor crónica. A Medicina define esta patologia como uma dor autónoma que persiste ou que é recorrente durante entre, pelo menos, três a seis meses. Em alguns casos a dor surge sem nenhuma causa aparente. Noutros, a dor começa por estar associada a uma patologia ou uma lesão, mas depois da patologia ou lesão serem tratadas a dor não desaparece. Muitas vezes é difícil determinar a sequência de fenómenos que dá origem à dor crónica.

“A dor aguda é um alerta do organismo, sinaliza uma lesão, é uma resposta biológica normal e é autolimitada. Já a dor crónica pode manifestar-se de várias formas, com difícil identificação do nexo causal ou temporal e com um impacto em todas as dimensões do doente — psicológica, social e profissional”, diz Sara Sousa Freitas, acrescentando que é necessário olhar para cada caso de forma individualizada.

várias patologias que podem produzir dor crónica: uma lesão traumática após uma cirurgia, patologias oncológicas, algumas patologias infeciosas (como, por exemplo, a zona), patologia músculo-esquelética, cefaleias ou a síndrome de dor regional complexa. Doenças crónicas ou autoimunes como a artrite reumatoide, a doença inflamatória intestinal, a fibromialgia, a diabetes, as polineuropatias, a doença vascular periférica também podem gerar dor crónica. 

Qual a resposta médica à dor crónica

As unidades médicas dedicadas à medicina da dor visam a promoção da qualidade de vida dos pacientes que sofrem de dor crónica. O objetivo é a atenuação do sofrimento ao nível físico, emocional e psicológico. Assim, numa situação normal, uma pessoa com dor crónica deve ser acompanhada por um médico que se dedique à medicina da dor, inserido neste tipo de unidades.

Neste contexto, para se apurar a causa da dor, bem como para o seu alívio, recorre-se “a técnicas específicas de diagnóstico, a medidas conservadoras de tratamento com recurso a terapêuticas multimodais farmacológicas, de fisioterapia e a técnicas de intervenção minimamente invasivas, consoante a patologia em causa”, explica Sara Sousa Freitas. “Em casos mais complexos pode ser necessária a aplicação de técnicas de alívio da dor, como a neuroestimulação ou a colocação sob a pele de dispositivos especiais para administração contínua de fármacos e até mesmo intervenção cirúrgica.”

Além disso, a resposta médica no contexto da dor é integrada, servindo-se de especialistas de várias áreas. “A existência de uma equipa multidisciplinar é fundamental para uma boa prática na gestão da dor e, neste sentido, temos integradas também as consultas de psicologia clínica, assim como o apoio diário personalizado de uma equipa de enfermagem que faz o devido acompanhamento”, refere a especialista. A Medicina Física e Reabilitação, a Neurocirurgia e a Reumatologia são outras áreas que dão apoio na Unidade de Tratamento da Dor.

Ainda assim, há muitos doentes com dor crónica que não têm um tratamento e acompanhamento adequados. Nestes casos, a patologia pode dificultar o trabalho e levar a uma perda geral da qualidade de vida. “A depressão, a ansiedade e as perturbações do sono são as comorbilidades mais frequentemente associadas”, acrescenta a especialista.

Efeitos da pandemia

Infelizmente, a pandemia não teve um impacto apenas para as pessoas que tiveram COVID-19. Os períodos de quarentena, bem como as várias restrições que foram impostas, contribuíram para danos psicológicos e sociais que, para Sara Sousa Freitas, tiveram um preço significativo, promovendo, entre outras coisas, a imobilidade, a diminuição na acessibilidade a consultas e a redução das atividades físicas relacionadas com a saúde.

“Neste sentido, a pandemia por COVID-19 reveste-se de características que podem contribuir para o aumento da incidência de novo de dor crónica ou agravamento da dor crónica já preexistente.”

Segundo Sara Sousa Freitas, uma das consequências mais diretas em relação aos doentes com dor crónica foi o acesso reduzido às unidades de tratamento da dor e aos cuidados de saúde primários. Esta situação pode ter levado à “descontinuação de algumas terapêuticas ou acesso reduzido aos tratamentos”.   

Consequências da infeção COVID-19 

Por enquanto, não há respostas definitivas sobre o efeito da infeção COVID-19 em pessoas com dor crónica ou enquanto desencadeadora de dor crónica. Os dados até agora obtidos são insuficientes para definir uma relação entre os dois, assim como com os fatores psicossociais provocados pela pandemia. 

“No entanto, desde o início da pandemia, a comunidade científica tem identificado a dor como um sintoma persistente importante após a infeção por SARS-Cov-2”, indica Sara Sousa Freitas. Os investigadores têm analisado a capacidade deste vírus invadir tanto o sistema nervoso central e periférico, como o músculo esquelético, a membrana sinovial e o osso cortical. Todos estes comportamentos podem ter consequências ao nível da dor.

“A cefaleia (dor de cabeça) tem sido a entidade mais identificada nos doentes pós-COVID-19, seguida da dor nos membros inferiores, tanto articulares, como musculares”, aponta a médica.

Outro dado interessante é a relação entre a presença de dor, a perda do olfato (chamada anosmia) e sinais de disfunção do sistema nervoso central. Os doentes COVID-19 que tiveram anosmia sentiram mais dor (que apareceu com a doença, portanto de início recente), do que os doentes de COVID-19 que não perderam o olfato. Além disso, o desenvolvimento da dor parece estar relacionado com “sinais de disfunção do sistema nervoso central”, relata a especialista. 

No entanto, estes são apenas resultados iniciais e serão necessários mais estudos para compreender se a perda do olfato está associada a sequelas de longo prazo que podem ter efeitos na dor.

Como atenuar os efeitos da pandemia

Devido aos “fatores multidimensionais” da pandemia, Sara Sousa Freitas não descarta a possibilidade de um aumento de novos doentes com dor crónica após a infeção por SARS-Cov-2 ou a exacerbação da dor nos doentes que já tinham previamente esta patologia.

Em resposta a esta situação, a médica explica que é necessário que os profissionais de saúde estejam alerta. “Os profissionais de saúde precisam de estar atentos à descrição dos sintomas persistentes após a infeção viral e também das alterações a nível da saúde mental. O reconhecimento precoce destas situações poderá reduzir as consequências da pandemia COVID-19 na dor crónica”, defende a médica.

“O acompanhamento, a referenciação e o tratamento imediato, juntamente com a implementação de estratégias preventivas direcionadas para mitigar o impacto potencial no desenvolvimento de dor crónica, deverão ser incentivados.” 
A dor crónica é uma dor que tem uma apresentação prolongada no tempo e de diagnóstico complexo. Cerca de um quinto dos europeus sofrem desta patologia.

Apesar de ainda não existirem dados que permitam concluir que a infeção por SARS-Cov-2 potencia a dor crónica, sabe-se que o efeito multidimensional da pandemia poderá exacerbar este problema.
 

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Colaboração

Dra. Sara Sousa Freitas

Hospital Lusíadas Albufeira:
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