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Musicoterapia: a música como ferramenta de saúde 

Esta terapia tira partido das vantagens da música, que é capaz de influenciar o bem-estar físico e psicológico do indivíduo. 

A Musicoterapia é uma técnica não farmacológica na área da Medicina que, assente em sessões dirigidas por um terapeuta qualificado e num processo terapêutico que se baseia no estabelecimento de uma relação musicoterapeuta-utente, tira partido das grandes vantagens da música e de todos os seus elementos — som, ritmo, melodia e harmonia — num contexto clínico, educacional e social.

"Muitas são as teorias que explicam as origens e funções da música, mas todas remetem para a ligação entre o corpo, sistema nervoso e equilíbrio, referindo ainda a sua utilização na comunicação, através da voz e do corpo, variando consoante a cultura e a sociedade de cada época", explica Daniela Brites, musicoterapeuta no Hospital Lusíadas Lisboa.

Melhora a autoestima, aumenta o bem-estar, potencia a expressão emocional, promove a comunicação e sentimento de pertença identitária. Mas os seus efeitos não se limitam às dimensões psicológica e social, sendo esta prática terapêutica capaz de impactar também a saúde fisiológica. Entre os seus benefícios, encontram-se a contribuição para o alívio da dor, o controlo da pressão sanguínea, da frequência cardíaca e respiratória ou atividade elétrica do cérebro. 

Para que serve a Musicoterapia

Com o objetivo de ajudar aqueles que enfrentam dificuldades em diferentes dimensões da vida, esta prática é guiada por um musicoterapeuta qualificado, responsável por delinear e planear pormenorizadamente estas intervenções, com base nas características e objetivos individuais de cada um.

“A maioria das pessoas pensa que a função da Musicoterapia é a de dar música aos utentes de um modo recreativo — por exemplo, pôr a reproduzir num leitor uma música de que gostem — mas é diferente”, explica a musicoterapeuta.

Funciona mesmo como uma terapia, tal como a Psicologia, Terapia da Fala ou Fisioterapia. “É uma área que envolve não só a intervenção terapêutica através da música, como também a ciência e os seus fundamentos. Pretende atuar nas várias dimensões comprometidas do indivíduo, seja a comunicacional, emocional, física ou comportamental”, acrescenta.

Individualmente, não atua de forma curativa, mas melhora a qualidade de vida, envolvendo sempre o trabalho em conjunto com outras especialidades. “Não é correto afirmar que a música, só por si, cura. No entanto, permite alterar estados de consciência e, em consonância com as outras áreas, ajuda a restaurar funções da pessoa que se encontram comprometidas”, indica a musicoterapeuta. 

É, por isso, uma terapia complementar e multidisciplinar, sendo “importante envolver a Psicologia, Terapia da Fala, Pediatria, Unidade da Dor, internamento, cuidados paliativos ou Oncologia”, exemplifica. 

Os efeitos da Musicoterapia

“Na Unidade da Dor, onde grande parte dos clientes sofrem de dor crónica, a Musicoterapia — através dos seus efeitos comunicativo, distrativo e de autoexpressão, aliados aos efeitos neurofisiológicos que a música induz no sistema nervoso cerebral — permite a mudança de foco, ajudando a melhorar áreas potencialmente comprometidas por este estado, como a relacional e familiar”, explica.

“Além disso, auxilia na execução das tarefas, aumenta a perceção e autoestima, conecta pensamentos e sentimentos, tendo também benefícios significativos em quadros de depressão ou de ansiedade associados. Tudo isto são componentes que influenciam a dor ou, pelo menos, a forma como esta é percecionada.”

É que, explica, “quanto mais ansiosa estiver a pessoa, mais se foca na sua patologia, atribuindo-lhe um maior nível de dor.” A Musicoterapia intervém, pois “ajuda a desenvolver estratégias, atuando também como uma técnica de distração ao captar a atenção e levar a mente à alteração de estados emocionais.”

Esta terapia é, por isso, uma aliada em muitas outras áreas. “No autismo também atua muito no sentido de desenvolver resultados na comunicação, no comportamento, na interação e na compulsão à repetição. Através do canto e da criatividade, pessoas com autismo conseguem verbalizar mais palavras, abrindo canais de comunicação e facilitando a autoexpressão e/ou alteração de comportamentos. O contacto visual estabelecido, a tolerância à proximidade física e a atenção são ainda outros aspetos que podem ser melhorados através da musicoterapia.” 

Já nos idosos, continua Daniela Brites, contribui para a recuperação de memórias reprimidas (reminiscência), para a diminuição da ansiedade e do isolamento social, para a estimulação sensorial e cognitiva e ainda para a preservação de competências. ”Recordo-me de um idoso com Alzheimer, que já não era capaz de falar e interagir que, no final de uma sessão de musicoterapia, começou a cantar o refrão de uma canção do início ao fim.” 

Também na recuperação de outras patologias é possível sentir os benefícios da Musicoterapia: “No caso de pessoas que sofreram um AVC ou outras patologias associadas ao sistema nervoso cerebral, através da neuro-estimulação e de movimentos corporais que partem da música, trabalhamos ao nível da reabilitação/coordenação motora com vista à melhoria e recuperação do movimento de um braço ou de uma perna, por exemplo.”

Daniela Brites destaca ainda o papel da Musicoterapia nos cuidados paliativos: “Neste caso, já não atua tanto na recuperação, mas contribui muito para o bem-estar emocional, relaxamento e para o controlo de sintomas como dor, náuseas e vómitos. Além disso, permite humanizar, promovendo a expressão de afetos, medos e emoções.”

Um plano individualizado

Tudo começa com uma avaliação inicial, que vai permitir dar início ao processo de planeamento, estruturação e implementação das intervenções de Musicoterapia, descrito num plano terapêutico individualizado e desenhado à medida de cada pessoa. 

Este plano personalizado varia de acordo com as características e necessidades do indivíduo, tendo sempre em consideração a sua privacidade, o seu potencial, assim como sinais, sintomas, dificuldades ou disfunções e ainda outros objetivos terapêuticos que possam ser delineados. 

“Não há um número de sessões predefinidas. O cliente vem, é feita a avaliação inicial em que conhecemos a sua identidade, as suas vivências diárias, as relações e gostos pessoais, preferências musicais, se toca algum instrumento ou se tem outro tipo de experiência com música”, explica Daniela Brites. 

“Depois, o terapeuta, com base no que avalia nas primeiras sessões, define objetivos concretos num plano individualizado, que é único e irrepetível. Não há um plano que seja comum a todos. É individualizado para cada pessoa e problema. “

Depois de estabelecidos os objetivos, são delineadas estratégias, atividades e experiências musicais com instrumentos de fácil utilização, voz, corpo e movimento. “É claro que em cada sessão é realizada uma avaliação e, consoante os progressos ou retrocessos, essas estratégias vão sendo adaptadas.”

Há outros dois fatores fundamentais para o sucesso da intervenção: “É preciso que haja uma relação terapêutica de confiança entre o musicoterapeuta e o utente e é também necessário que a pessoa goste e tenha predisposição para a música.”

Os objetivos da Musicoterapia

Através de elementos sonoro-musicais e da relação do cliente com a musicoterapeuta, há vários objetivos que podem ser estabelecidos e alvo de desenvolvimento nas sessões de Musicoterapia. Entre eles, encontram-se: 

  • Contribuir para o alívio da dor 
  • Apoiar na gestão da ansiedade;
  • Melhorar as competências comunicativas e relacionais;
  • Treinar competências funcionais e gestão de comportamentos;
  • Conter e modificar desregulações emocionais expressadas ao nível físico e psicológico;
  • Promover a expressão de afetos;
  • Identificar e fortalecer aspetos motivacionais;
  • Valorizar o potencial do indivíduo;
  • Desenvolver e reforçar os recursos de integração do self e o processo de reminiscência;
  • Contribuir para a adaptação do indivíduo ao seu contexto, promover a integração/reintegração social;
  • Promover a aquisição/reabilitação de funções neuropsicológicas e motoras;
  • Contribuir para o conhecimento e o crescimento pessoal;
  • Desenvolver e potenciar a criatividade individual e o pensamento abstrato;
  • Apoiar sistemas familiares em risco e promover a interação grupal.

 

As vantagens da Musicoterapia

A Musicoterapia tem três áreas de atuação, sendo capaz de impactar as dimensões fisiológica, psicológica e sociocultural.

Em termos fisiológicos, a musicoterapia tem efeitos positivos na:

  • Pressão sanguínea;
  • Ritmo cardíaco;
  • Ritmo respiratório;
  • Resposta galvânica da pele;
  • Resposta muscular e motora;
  • Movimentos peristálticos;
  • Atividade elétrica do cérebro.

Em termos psicológicos, a musicoterapia é capaz de:

  • Potenciar a expressão emocional;
  • Evocar memórias afetivas e facilitar os processos cognitivos (atenção, concentração, memória);
  • Configurar uma ferramenta para a organização do pensamento, promoção do prazer e bem-estar, autoestima e motivação;
  • Fomentar a ação contida e estruturada;
  • Facilitar a construção do “eu” próprio;
  • Aumentar a autoestima.

Em termos socioculturais, a musicoterapia contribui para:

  • A promoção da comunicação;
  • A promoção da coesão grupal e o sentimento de pertença identitária;
  • A promoção da partilha de valores culturais e a cooperação.

Além da ausência de efeitos secundários e da excelente relação custo-eficácia-benefício, em termos gerais, as vantagens da Musicoterapia são:

  • Diminuição do stresse, da ansiedade, da depressão e do isolamento, bem como da elevação da autoestima;
  • Facilita a expressão e a comunicação e permite o contacto com as estruturas internas;
  • Apresenta resultados ao nível da alteração dos significados pessoais relativos à incapacidade de confrontar a dor, ao empenho e ao esforço para o seu controlo;
  • É facilmente integrada num plano terapêutico multimodal;

Por tudo isto, a Musicoterapia contribui para o restabelecimento da saúde e para a qualidade de vida do indivíduo. 

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Dor Saúde Mental

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Colaboração

Terapeuta Daniela Brites

Outras Áreas
Hospital Lusíadas Lisboa
PT