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Trombofilia e gravidez: porque acontece?

O risco acrescido de tromboses deve ser acautelado nas mulheres grávidas.

A trombofilia é uma patologia ligada à predisposição para formar coágulos sanguíneos, que podem bloquear uma artéria ou uma veia, impedindo a circulação normal do sangue.

Numa grávida, este problema torna-se mais complexo, explica Fernando Príncipe, especialista em Hematologia Clínica do Hospital Lusíadas Porto. 

Isto porque, durante a gravidez, “para prevenir o excesso de hemorragia durante a separação da placenta”, o organismo da mulher aumenta “os níveis dos fatores pró-coagulantes, reduzindo fatores anticoagulantes”. Ou seja, de forma a evitar perdas de sangue excessivas, o organismo da grávida cria esta espécie de mecanismo de proteção, que se reflete no aumento da capacidade de coagulação do sangue. 

Apesar de protetora, esta situação pode, em determinados contextos, potenciar a trombofilia com consequências para a mulher e para o feto.

Sangue e coagulação 

A trombofilia está diretamente ligada à capacidade do sangue coagular. Quando acontece um corte que provoca perda de sangue, o organismo produz uma cascata de sinais que levam à coagulação do sangue. Neste processo, estão envolvidas várias substâncias químicas, além das plaquetas. O coágulo permite encerrar o corte, suprimindo a hemorragia.

No entanto, o organismo também precisa de controlar esta capacidade coagulante, que em excesso poderá causar problemas, como o bloqueio dos vasos sanguíneos. Nesse sentido, existem outras substâncias químicas que atuam contra a coagulação e que são capazes de interromper este processo, no momento em que se cumpre o objetivo de estancar o sangue que se liberta de uma ferida.

A trombofilia ocorre quando há um desequilíbrio sistémico nesta capacidade de coagulação e de anticoagulação do sangue. Pode haver demasiados fatores coagulantes, poucas substâncias químicas que contrariem a coagulação ou outra situação que altere esta dinâmica. O resultado é que o organismo acaba por ter mais dificuldade em travar o processo de coagulação. 

Na maior parte das vezes, esta situação não causa qualquer problema. Mas, em alguns casos, a trombofilia desencadeia a doença tromboembólica, incluindo nas mulheres grávidas.

Trombofilia e gravidez 

Há várias causas para a trombofilia, existindo fatores de risco como a obesidade, patologias cardíacas, diabetes, uso de anticoncecionais, patologias causadas por certas infeções e a própria gravidez. 

Mas, numa percentagem importante dos casos, a trombofilia é de foro hereditário. Neste caso, existe a mutação de, pelo menos, um gene de alguma das proteínas importantes para o sistema de coagulação sanguínea – transmitido pelo pai, pela mãe ou por ambos –, que vai desequilibrar este sistema, aumentando a probabilidade de uma trombose.

Na gravidez estes tipos de riscos estão potenciados. O organismo da mulher altera o balanço normal da capacidade coagulante do sangue, aumentando os fatores coagulantes e diminuindo os fatores anticoagulantes. Esta mudança é importante, principalmente para prevenir o excesso de perda de sangue durante o parto, quando a placenta é expelida. Por isso, as mulheres que já sofriam de trombofilia tornam-se mais vulneráveis. 

Além disso, à trombofilia “associam-se outros riscos individuais tradicionais como a idade superior a 35 anos, a obesidade, recentes cirurgias, o hábito tabágico, a imobilização, uma história prévia de doença tromboembólica, a hipertensão arterial”, sinaliza Fernando Príncipe. “Este risco existe até cerca de quatro a seis semanas após o parto”, especifica o médico.

Sintomas e consequências na gravidez

Por representar um risco acrescido para a ocorrência de doença tromboembólica, não existem propriamente sintomas da trombofilia. 

Quando se verificam, são aqueles já causados pela doença tromboembólica. Esta divide-se em: trombose venosa profunda (TVP), que ocorre quando uma veia (geralmente das pernas) se torna parcial ou completamente obstruída por um coágulo sanguíneo; e embolia pulmonar, quando um coágulo sanguíneo formado numa veia periférica se solta e é transportado pelo sangue até aos pulmões, obstruindo um vaso.

Os sintomas na grávida são os mesmos que nas outras pessoas. No caso da TVP, dá-se um inchaço súbito na perna, quando o trombo ocorre neste membro, que fica também inflamado, vermelho e quente. No caso da embolia pulmonar, surge uma sensação intensa de falta de ar e dificuldade em respirar.

O grande risco da trombofilia “é o da doença trombótica para a mãe”, diz o especialista. “A gravidade desta pode interferir com a evolução da gravidez”, acrescenta. Nestes casos, pode acontecer o desprendimento da placenta, o parto prematuro e o aborto. 

No entanto, é importante sublinhar que a maioria das grávidas com trombofilia atravessa uma gravidez normal.

Prevenção e tratamento 

É possível prevenir a patologia identificando as mulheres com risco trombótico hereditário. Há diversas circunstâncias que indicam que é necessário estar alerta: quando a pessoa já teve doença tromboembólica, quando sofreu vários abortos espontâneos e quando se verifica história familiar, mais concretamente, parentes diretos com esta patologia.

E como é que se confirma a trombofilia? “Fazendo um estudo diagnóstico”, diz Fernando Príncipe, indicando que este se reflete em exames de sangue. Se a análise confirmar a patologia, o próximo passo é a iniciação da profilaxia.

“Na grávida com trombofilia hereditária, o objetivo do tratamento é o da prevenção do tromboembolismo venoso, seguindo as diretrizes internacionais”, diz. Estas normas são aplicadas “no ante/intraparto e pós-parto, integrando as heparinas de baixo peso molecular e warfine”, refere. 

Tanto as heparinas como o warfine são medicamentos anticoagulantes que impedem a formação de coágulos. “A dose, a frequência e o tempo de administração estão dependentes do risco trombótico”, explica o especialista. Fernando Príncipe termina indicando que, quer no diagnóstico, quer no tratamento, estão envolvidos profissionais de várias disciplinas como “a Patalogia Clínica, a Imunohemoterapia, Hematologia Clínica, aconselhamento genético e Ginecologia/Obstetrícia”. 

O médico sublinha ainda a importância de “integrar” os vários profissionais das áreas enumeradas acima numa equipa médica que siga a evolução da gravidez e do parto, oferecendo, desta forma, uma segurança mais ampla à mulher grávida e futura mãe, permitindo tomadas de decisão atempadas e oportunas, tanto em relação à prevenção, como em relação ao tratamento da doença trombótica aguda.

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Colaboração

Dr. Fernando Príncipe

Hospital Lusíadas Porto:
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