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Neurinoma do acústico: o que é e como se trata

Este tumor que cresce na região do ouvido interno pode provocar surdez se não for tratado a tempo. Sendo a microcirurgia a forma mais adequada de tratamento, a radioterapia pode ser equacionada em circunstâncias específicas.

Apesar de ser pouco conhecido, todos os anos surgem em Portugal 100 novos casos de pacientes com neurinoma do acústico. Ao desenvolver-se, este tumor vai ocupando o canal auditivo interno e provoca perdas auditivas, zumbidos, dores de cabeça e outros sintomas. Apesar de ser benigno na maioria dos casos, se o neurinoma do acústico não for tratado e continuar a crescer, pode tornar a vida do doente incapacitante. Mas é possível remover o tumor através de uma microcirurgia sem danificar as estruturas do sistema auditivo que estão em seu redor.

Origem e localização anatómica

“O neurinoma do acústico é um tumor de um nervo e a sua origem é um dos nervos vestibulares, o superior ou o inferior. É causado por uma multiplicação anormal, desregulada, geneticamente determinada, das células que revestem o nervo, as células de Schwann”, explica Victor Gonçalves, professor, neurocirurgião e coordenador da Unidade de Neurocirurgia do Hospital Lusíadas Lisboa.

O nome correto deste tipo de tumores é schwannoma, derivado do nome daquelas células. Mas, “como o nervo auditivo está junto aos nervos vestibulares e as queixas mais vezes referidas pelos doentes dizem respeito à perda de audição e aos zumbidos, chama-se vulgarmente ao tumor neurinoma do acústico”, acrescenta o médico. Os nervos vestibulares e o nervo auditivo fazem a comunicação entre o cérebro e estruturas importantes do ouvido interno, e podem ser afetados pelo neurinoma.

“Os nervos vestibulares terminam nas estruturas do labirinto, canais semicirculares e vestíbulo responsáveis pelo equilíbrio e correção postural”, diz o especialista. Se há lesões devido ao neurinoma, este órgão pode provocar vertigem e desequilíbrio. Já “o nervo auditivo ou coclear é responsável pela transmissão dos estímulos auditivos provindos da cóclea.

Os zumbidos e a perda auditiva devem-se à alteração da transmissão desses estímulos pela lesão compressiva do nervo auditivo causada pelo crescimento tumoral”, acrescenta Victor Gonçalves.

Sintomas e diagnóstico

Os sintomas do neurinoma do acústico estão associados ao seu tamanho e posição. Numa primeira fase, o tumor não chega a ter um milímetro. Mas com o tempo ele pode crescer mais do que três centímetros, ocupando um espaço maior e comprimindo estruturas adjacentes, desde os nervos do sistema auditivo e os que permitem a deglutição e a fala, até ao tronco cerebral. Inicialmente, as queixas dos pacientes passam pela perda de audição e zumbidos no ouvido onde se localiza o tumor, devido à compressão do nervo auditivo.

Por vezes, ocorre uma sensação de vertigem, que pode ser mais ou menos frequente, justificada pela lesão dos nervos vestibulares. Com o desenvolvimento do tumor ele passa a comprimir o tronco cerebral, o cerebelo e as estruturas adjacentes, como o nervo trigémio, responsável pela sensibilidade da face, ou os nervos responsáveis pela deglutição.

Esta evolução resulta numa perda auditiva mais acentuada e zumbidos, desequilíbrio, dificuldade no ato de caminhar e provocar dores de cabeça persistentes. Além disso, é possível surgir dormência ou formigueiro na cara e dificuldade em deglutir líquidos. Os sintomas obrigam, normalmente, o doente a ir ao médico - Otorrinolaringologista, (O.R.L.), Neurologista, Medicina Familiar -, sendo este o primeiro passo para o diagnóstico.

Depois, realizam-se exames complementares para confirmar o quadro clínico, enumera Victor Gonçalves: “A tomografia axial computorizada cranioencefálica, testes de O.R.L. (por exemplo, audiograma tonal e vocal) e uma ressonância magnética encefálica, exame que dá o diagnóstico ao revelar mesmo os mais pequenos tumores.”

Da microcirurgia à radioterapia

A resposta médica ao neurinoma do acústico passa pela microcirurgia, pela radioterapia ou apenas pela monitorização do crescimento do tumor, dependendo do tamanho deste, da idade da pessoa e das suas condições de saúde.

“Um pequeno neurinoma sintomático, intra-canalar, isto é, que preencha o canal auditivo interno e aflore o seu orifício (poro acústico) por onde entram os nervos vestibulares, auditivo e facial, num doente com menos de 70 anos, deverá ser removido por técnica microcirúrgica se as condições clínicas gerais do doente não o contraindicarem e se os sintomas e sinais que apresenta forem limitativos para a sua vida normal”, explica Victor Gonçalves.

“Pretende-se preservar a audição e evitar a compressão, pelo crescimento do tumor, das estruturas nervosas adjacentes.” A monitorização intraoperatória dos nervos que rodeiam o tumor reduz as possibilidades de lesões dos mesmos. No entanto, caso o doente tenha mais de 70 anos, não tenha sintomas que impeçam uma vida normal e já tenha perdido a audição devido ao tumor, o médico explica que a melhor opção é vigiar anualmente o seu crescimento.

Neste caso, a intervenção só está indicada se o tamanho do neurinoma provocar consequências mais adversas. Noutros doentes, que não podem realizar a cirurgia, mas precisam de controlar o crescimento do tumor, a opção passa pela radioterapia, de modo a impedir a expansão do neurinoma.

“Este tratamento pode fazer-se em situações de doentes idosos ou portadores de doenças impeditivas da cirurgia pelos riscos médicos envolvidos”, explica o especialista, avisando que é necessário ter em conta as consequências adversas da radiação, como lesões do tronco cerebral, lesão dos nervos adjacentes ao neurinoma, nevralgia do trigémeo, hidrocefalia ou alterações no neurinoma que o transformem num tumor maligno. A radioterapia raramente diminui as dimensões do tumor, podendo, no entanto, retardar o seu crescimento.

A importância do diagnóstico precoce

Fazer o diagnóstico do neurinoma do acústico numa fase inicial é fundamental. “Apesar do seu lento crescimento, a proximidade do neurinoma do acústico em relação a estruturas nervosas e vasculares vitais implica que seja necessário obter um diagnóstico precoce e um tratamento microcirúrgico atempado”, sublinha Victor Gonçalves.

A proximidade dos nervos cranianos adjacentes torna a operação mais difícil à medida que o tumor cresce. “Não sendo diagnosticado atempadamente, o neurinoma do acústico evolui para surdez, paralisia facial do lado da lesão, desequilíbrio e vertigem incapacitantes, hidrocefalia com cefaleias persistentes e, por último, sequelas graves e impeditivas da vida normal.”

Em suma

O neurinoma do acústico surge a partir da transformação de células que compõem o nervo vestibular. Se não for tratado atempadamente, este tumor pode levar à surdez e a outros sintomas que dificultam a vida do doente. A microcirurgia é a única forma de remover o neurinoma. Quanto mais cedo for feita a remoção, menores serão as sequelas do tumor e da própria cirurgia.

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Especialidades em foco neste artigo

Colaboração

Prof. Doutor Victor Gonçalves

Coordenador da Unidade de Neurocirurgia

Neurocirurgia
Hospital Lusíadas Lisboa
PT