Lusiadas.pt | Blog | Doenças | Sintomas e tratamentos | Mitomania: quando mentir é uma doença
3 min

Mitomania: quando mentir é uma doença

Todas as pessoas já mentiram uma vez na vida. E até há um dia (1 de abril) em que isso é notícia, mas o que fazer quando estamos perante alguém que mente compulsivamente?

Quando a mentira se torna um vício, uma forma de estar na vida, as histórias deixam de ter graça e as consequências para o bem-estar da pessoa e de todos os que a rodeiam pode ser nefasta. “A maioria das pessoas faz isso por medo mas, mentir compulsivamente, interfere no julgamento racional, no relacionamento familiar e especialmente social”, alerta Júlia Machado, psicóloga do Hospital Lusíadas Porto. Conheça os principais sinais de alarme e os tratamentos para superar este problema.

Mitomania: mentir é doença

A mentira pode ser considerada uma patologia e tem um nome: mitomania. Neste quadro clínico inserem-se as pessoas que contam mentiras compulsivamente. De acordo com Júlia Machado, “este tipo de comportamento é causado por um transtorno/perturbação psicológico/a.

A diferença é que, neste caso, existe uma eventual simulação, omissão ou distorção da verdade que normalmente é praticada por indivíduos saudáveis”. A frequência é o principal sinal de alarme deste problema ao qual deve estar atento. “O mais importante é identificar e reconhecer a mentira como um hábito patológico. A mentira excessiva é um sintoma comum de diversas doenças mentais”, realça.

Mentir, porquê?

Existem várias razões que podem levar uma pessoa a transformar a mentira numa forma de estar na vida. Uma das principais é a necessidade de atenção ou de reconhecimento por parte dos outros, por vezes com o desejo implícito de tirar partido. “Sabe-se que as principais causas da mentira patológica são decorrentes de traços da personalidade, problemas nas relações familiares e experiências stressantes ou traumáticas”.

Por exemplo, “pessoas que sofrem de transtorno/perturbação da personalidade antissocial normalmente mentem para se beneficiar junto dos outros. Alguns indivíduos com transtorno/perturbação de personalidade borderline podem mentir para chamar a atenção, alegando que eles foram mal tratados ou pressionados.”

Principais consequências

As repercussões negativas que a mentira pode ter a nível familiar e social são inquestionáveis. A falta de confiança destrói amizades e relacionamentos e “se a doença continua a progredir, a mentira pode tornar-se tão grave que eventualmente pode causar problemas de ordem social, psicológica e até legal”, alerta a psicóloga. A exclusão é frequente nestas situações, contudo são precisamente as pessoas que rodeiam o mitómano que o podem ajudar.

“Devem fomentar-se sempre comportamentos e atitudes verdadeiras, valorizando-as e, por outro lado, desvalorizar sempre que a pessoa tiver relatos falsos”, aconselha a psicóloga, apesar de admitir que “é difícil estar com a pessoa que tem este transtorno. Devemos sempre incentivá-la a pedir ajuda, a fim de que ela possa reconhecer que está a ter consequências negativas na sua vida”.

Como tratar

O tratamento de problemas associados à mitomania engloba vários profissionais e áreas de intervenção. O diagnóstico da mitomania pode ser feito pelo médico psiquiatra ou psicoterapeuta após uma avaliação psicológica. Na maioria dos casos, “o tratamento envolve acompanhamento psicológico e em pessoas que também apresentem outros quadros psiquiátricos (depressão ou ansiedade) o uso de psicofármacos poderá ser recomendado”.

Fora do consultório, existe um apoio que não deve ser negligenciado: a família e os amigos. Na opinião de Júlia Machado, estes são fundamentais, uma vez que permitem “desenvolver relações mais saudáveis de confiança e conforto, e fazem com que a pessoa recupere o autocontrolo e a autoestima”.

Mudar de atitude

O objetivo principal do médico ou psicólogo é conseguir que a pessoa reconheça “os prejuízos que o seu comportamento pode trazer para si e para terceiros e que queira mudá-lo”, frisa Júlia Machado. Neste ponto, a psicoterapia parece ser um dos métodos mais eficazes pois, como defende a psicóloga: “Ajuda o indivíduo a desenvolver novos comportamentos e hábitos, reforçando relatos verdadeiros e ignorando relatos falsos. Neste contexto trabalha-se a extinção deste hábito disfuncional”.

Brincadeiras de criança

Ocultar a verdade é normal na infância, muitas vezes fruto da imaturidade. Como explica Júlia Machado, “muitas crianças têm dificuldade de enfrentar frustrações e críticas, e acabam por mentir aos pais na tentativa de preservar a autoestima. Essa característica só se torna patológica quando a criança adota um comportamento persistente de mentir (mitomania) e constata que a sua mentira pode ser entendida como verdade sem nenhuma consequência negativa associada.”

A mentira pode ainda proporcionar uma sensação de prazer e poder que pode levar a acentuar este comportamento. “À medida que os amigos acreditam, a criança começa a contar cada vez mais histórias mais incríveis, assumindo a mentira como uma repetição constante na sua vida, sem finalidade específica”, descreve. Baixa-auto estima, supervalorização das crenças, não enfrentamento da angústia ou frustração associada a uma situação, são as principais causas deste tipo de transtorno, segundo a psicóloga.

Ler mais sobre

Saúde Mental

Este artigo foi útil?

We appreciate the feedback.

Please include your email if you want us to follow up with you.

Especialidades em foco neste artigo

Dra. Júlia Machado

Psicologia
Hospital Lusíadas Porto
PT