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Os coronials e as consequências de nascer na pandemia

Os ‘coronials’ - crianças que nasceram durante a pandemia — sofreram com o confinamento e as restrições de relacionamento social.

Os três primeiros anos de vida são essenciais no desenvolvimento de uma pessoa. Por isso, nascer ou dar os primeiros passos durante a pandemia de COVID-19 tem impacto ao nível físico e psíquico, diz Graça Loureiro, pediatra no Hospital Lusíadas Porto.  

Apesar de só agora começarem a ser realizados estudos nesse sentido, entre a comunidade médica notam-se diferenças nas consultas, sobretudo em relação aos ‘coronials’. “Crianças que estiveram privadas - ou com um círculo muito restrito, quase de três pessoas - da socialização com outras crianças, numa integração mais tardia no infantário, tiveram alguma dificuldade nessa adaptação”, refere a especialista. 

Ansiedade e um novo modelo de organização familiar

Notou-se ainda que “as famílias um pouco mais ansiosas com estas questões das infeções e das doenças, passaram alguma desta ansiedade para as crianças”, refletindo-se na ausência de proximidade para com os outros, evitando beijos, abraços e contacto físico. “Isto é tudo fruto de medidas que tiveram de ser tomadas, porque, se assim não fosse, não conseguíamos ter dado a volta da forma como demos, pelo menos numa fase inicial”, refere Graça Loureiro. 

A ansiedade que se viveu em família agravou-se com os avanços e recuos da pandemia, com repercussões na criança. “Numa fase de relaxe da pandemia, volta a interagir-se, levam-se as crianças ao parque para interagir com outras crianças e depois, de repente, os parques estão novamente fechados. Como é que explicamos a uma criança?” 

A pandemia trouxe também dificuldades em torno da organização familiar. Por exemplo, com o encerramento dos infantários, os pais tiveram de “deixar as crianças com os avós ou outras pessoas que provavelmente não seriam as pessoas mais disponíveis ou as mais adequadas”.

Além disso, durante a pandemia, os pais tiveram de conciliar o teletrabalho com a educação de uma criança em casa, sem terem todos os mecanismos ao seu dispor para fazê-lo. “Dessa perspetiva, as coisas ficaram um pouco prejudicadas. Só agora, pouco a pouco, é que se está a voltar ao novo normal, mas mesmo assim houve situações que foram ficando.”

O impacto para o sistema imunitário dos coronials

As medidas de restrição e de distanciamento social, bem como o recurso às máscaras num contexto diário acabam por ter também um impacto no sistema imunitário, mesmo nas crianças. “Crianças que não têm um contacto tão direto - nem tiveram um contacto tão precoce com certos agentes víricos e bacterianos - agora, ao fim de dois anos, recorrem ao serviço de urgência com quadros clínicos provocados por estirpes mais virulentas”, refere, esclarecendo que isto tem sido particularmente percetível com o libertar das máscaras. 

Infeções mais graves e em alturas pouco comuns

Têm surgido casos de crianças que, depois de expostas por exemplo ao adenovírus, surgem “com doença mais grave, quer respiratória quer de foro gastrointestinal”. Depois, estirpes que tradicionalmente ocorreriam apenas numa dada estação do ano, surgem em alturas menos comuns. “Em junho, estamos a ter casos de gripe A e bronquiolites agudas provocadas por Vírus Sincicial Respiratório (VSR), com quadro moderado a grave, que estávamos habituados a ver noutra época do ano”, afirma.

Tratando-se de crianças que terão ido ao infantário por pouco tempo e com pouca interação prévia com outras crianças e adultos, em muitos casos, os ‘coronials’ surgem no Hospital “com situação clínica mais grave quer do ponto de vista gastrointestinal, respiratório ou até neurológico”. 

Mas, defende a médica, o verdadeiro impacto de todas as medidas adotadas durante a pandemia só agora é que se vai começar a perceber, com o aprofundamento de alguns estudos em relação ao fenómeno.

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Revisão Científica

Dra. Graça Loureiro

Hospital Lusíadas Porto
Clínica Lusíadas Gaia

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