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Suicídio: a importância da prevenção

Ana Peixinho, médica psiquiatra e Diretora Clínica do Hospital Lusíadas Monsanto, explica neste artigo como lidar com alguém com indícios de querer cometer suicídio e quais os sinais de alarme. Acima de tudo é importante mostrar afeto à pessoa e fazê-la sentir que não está sozinha, escreve a psiquiatra.

Todos os anos mais de 800 mil pessoas põem termo à vida e um número muito superior faz tentativas de suicídio. Cada suicídio é uma tragédia que afeta a família e a comunidade com efeitos a longo prazo em quem vive de perto com esta realidade. Surge em qualquer faixa etária sendo a segunda causa de morte na faixa etária dos 15 aos 29 anos (2012), só ultrapassada pelos acidentes rodoviários. A partir dos 70 anos, verifica-se um aumento significativo na taxa de suicídio, que triplica o seu valor.

O suicídio não ocorre exclusivamente em países desenvolvidos, mas é um fenómeno global que ocorre em todas as regiões do mundo. De facto, 75% dos suicídios ocorre em países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento (2012). Em Portugal, a taxa de mortalidade por suicídio em 2014 foi de 11,7 por 100 mil habitantes, enquanto em 2012 e 2013 foi de 10,1, por 100 mil habitantes. Os homens apresentam uma taxa de suicídio três vezes superior. Existe uma distribuição geográfica marcada, que é tradicionalmente menor no Norte e maior na região Sul, embora esta variação tenha vindo a atenuar-se. O suicídio é um importante problema de Saúde Pública; que pode ser prevenido com intervenções multidisciplinares adequadas baseadas na evidência e habitualmente pouco dispendiosas.

Grupos de risco

O risco entre suicídio e doença mental (particularmente Síndrome Depressivo e Perturbação do Uso de Álcool) está bem estabelecido nos países desenvolvidos. No entanto, muitos suicídios decorrem de situações de impulsividade em momentos de crise com dificuldade em lidar com fatores stressantes externos, como dificuldades financeiras, roturas conjugais ou dor e doença crónicas. Por outro lado, situações de conflito, catástrofes, violência, abuso ou luto e o próprio isolamento social estão fortemente associados a comportamentos suicidários. As taxas de suicídio são superiores em grupos vulneráveis, como refugiados e populações migrantes, indigentes, homossexuais, bissexuais, transsexuais e presos. No entanto o maior fator de risco é uma tentativa prévia.

O estigma

O estigma, particularmente em redor da Doença Mental e do Suicídio, faz com que muitas pessoas que pensam pôr termo à vida ou que já o tentaram não procurem ajuda especializada. A prevenção não tem sido adequadamente conduzida devido à falta de consciência do suicídio como um grave problema de saúde pública e do tabu em várias sociedades para o discutirem. Até à data só alguns países incluíram a prevenção nas suas prioridades de políticas de saúde. Aumentar a consciência da comunidade e acabar com o tabu é fundamental para progredir na prevenção.

Fatores de risco 

Características que predispõem um individuo a considerar, tentar ou cometer suicídio.

  • Tentativas prévias;
  • História de suicídio na família;
  • Abuso de substâncias;
  • Perturbações de humor (Síndrome Depressivo, Doença Bipolar);
  • Acesso facilitado a métodos letais; - Fatores Stressantes Externos (dificuldades financeiras, roturas conjugais, catástrofes, violência, luto…);
  • História de trauma ou abuso;
  • Doença crónica, incluindo dor crónica;
  • Exposição ao comportamento suicidário de terceiros.

Fatores protetores

Características que diminuem a probabilidade de um individuo considerar, tentar ou consumar o suicídio.

  • Acompanhamento em Saúde Mental, fácil acesso a diferentes intervenções clínicas;
  • Relações estruturadas de amizade, familiares e comunitárias;
  • Capacidade de resolução de problemas e conflitos;
  • Fácil acesso aos cuidadores (ex: chamada telefónica de follow up do profissional de saúde). 

Sinais de alarme

Indicam risco imediato:

  • Falar ou escrever frequentemente sobre morte, morrer ou suicídio;
  • Fazer comentários de desesperança e culpabilidade;
  • Utilização de expressões que evidenciam falta de motivação para viver (ex: “era melhor se não estivesse aqui”, “quero acabar com isto”…);
  • Aumento do consumo de álcool ou drogas;
  • Isolamento social;
  • Comportamentos imprudentes ou de risco;
  • Alterações bruscas de humor;
  • Falar em se sentir aprisionado ou em ser um peso para os outros.

Se alguém dá indícios de que quer cometer suicídio, oiça e tenha em conta as suas preocupações. Não tenha medo de fazer perguntas sobre os seus planos. Mostre-lhe que se preocupa e que essa pessoa não está sozinha. Encoraje-a a procurar ajuda profissional imediatamente. Não a deixe sozinha.

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Revisão Científica

Dra. Ana Peixinho

Dra. Ana Peixinho

Coordenador da Unidade de Psicologia , Psiquiatria , Neuropsicologia

Hospital Lusíadas Lisboa
Hospital Lusíadas Monsanto

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