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Tricotilomania: o que deve saber

Não é um mau hábito ou um “tique”. A tricotilomania pertence à categoria das Perturbações Obsessivo-Compulsivas (POC) e pode causar um mal-estar significativo, com impacto funcional e social. Desmitifique as ideias erradas.

Uma perturbação obsessivo-compulsiva é uma doença psiquiátrica que se caracteriza por pensamentos, imagens ou impulsos recorrentes, intrusivos e persistentes (obsessões) e comportamentos repetitivos (compulsões) que a pessoa sente como obrigatórios em resposta às obsessões. Neste espectro encontra-se a tricotilomania, descrita pela primeira vez na Grécia antiga. De acordo com o estudo “Trichotillomania”*, a pesquisa mais atualizada sobre o tema, esta perturbação caracteriza-se pelo facto de a pessoa arrancar, recorrentemente, cabelos ou pelos de qualquer zona do corpo. Embora para o exterior possa parecer um problema de perda/falta de cabelo, esta ação é provocada pela própria pessoa. Como a tricotilomania pode ter um impacto estético significativo, está associado a um estigma social que leva a que a pessoa tente esconder as zonas sem cabelo/pelos ou procure tratamento dermatológico antes ou em substituição de tratamento psiquiátrico.

As possíveis causas de tricotilomania

Pensa-se que a tricotilomania esteja grandemente associada a perturbações de ansiedade. Pesquisas de imagiologia também detetaram algumas alterações do foro neurológico.

As componentes cognitiva e da neuropsicologia também parecem ter um papel na etiologia da tricotilomania, sendo que as pessoas com tricotilomania podem relatar ter ocorrido uma situação causadora de stresse antes de começarem a manifestar o comportamento típico da perturbação (arrancar cabelo/pelos). Outras pessoas descrevem o sentimento de tédio como tendo precedido a tricotilomania. O stresse ou aborrecimento são efeitos negativos, sentimentos ou emoções que, de acordo com as pesquisas sobre o tema, estão correlacionadas com o intensificar do aumento do comportamento de arrancar cabelos/pelos. Parece existir uma sensação de tensão que precede o comportamento de arrancar cabelos/pelos e que é aliviada por esta ação. Como a sensação negativa é atenuada desta forma, o comportamento torna-se repetitivo.

Quem é mais afetado?

A tricotilomania parece começar a manifestar-se na adolescência, embora os pacientes adolescentes nem sempre apresentem todos os critérios enumerados pelo DSM-5 – Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (da autoria da American Psychiatric Association) –, experienciando apenas alguma forma dos sintomas. A tricotilomania é reportada como sendo mais frequente em mulheres, mas pensa-se que o estigma associado à perturbação faz com que esta esteja, no geral, subdiagnosticada.

Como se caracteriza a tricotilomania

No geral, as pessoas usam as mãos para arrancar os cabelos/pelos, mas também podem utilizar uma pinça, por exemplo. Os cabelos são a parte pilosa mais frequentemente arrancada, mas também podem ser os pelos das sobrancelhas, pestanas ou pelos de qualquer parte do corpo. O ato de arrancar pode ser considerado automático quando a pessoa está abstraída e não ciente de que está a fazer, mas também pode ocorrer quando o indivíduo está exclusivamente concentrado no ato de arrancar os cabelos/pelos.

A tricotilomania pode estar associada a alguns rituais e há casos em que pessoas escolhem cuidadosamente os cabelos/pelos que vão remover e depois inspecionam-nos, podendo comer alguns ou até porções inteiras. Se ocorrer a ingestão de cabelos, estes podem acumular-se em diversos locais do sistema digestivo e originar uma patologia (tricobezoar) que causa sintomas como náuseas, vómitos ou obstipação. Esta situação deve ser avaliada assim que possível, pois pode, se a quantidade de cabelo acumulado for significativa, provocar obstrução ou perfuração do intestino – uma situação médica grave que pode implicar tratamento cirúrgico.

O diagnóstico

A tricotilomania requer um diagnóstico clínico que deve, embora não seja obrigatório, ser confirmado através de uma biópsia ao couro cabeludo que demonstrará se a remoção do cabelo ocorreu através de trauma (o ato de arrancar). O médico conduzirá uma entrevista semiestruturada de diagnóstico, na qual procurará também avaliar se a pessoa se enquadra nos critérios enumerados pelo DSM-5. Estes critérios incluem:

A. Arrancar o próprio cabelo de forma recorrente, resultando em perda de cabelo.

B. Tentativas repetidas de reduzir ou parar o comportamento de arrancar o cabelo.

C. O ato de arrancar o cabelo causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

D. O ato de arrancar cabelo ou a perda de cabelo não se deve a outra condição médica (por exemplo, uma condição dermatológica).

E. O ato de arrancar cabelo não é mais bem explicado pelos sintomas de outra perturbação mental.

Exame físico

Se a pessoa consultar um médico que não é psiquiatra, este procederá à recolha da história clínica e a um exame físico. É comum o doente negar que arranca cabelo/pelos, podendo queixar-se de outras perturbações, referindo os sintomas associados. Pode apresentar queixas gastrointestinais somáticas, possivelmente devido à ingestão de cabelos. A história de perda de cabelo pode ser variada e com respostas vagas se a pessoa estiver a minimizar o comportamento estigmatizante.

O exame físico deve incluir a análise das zonas onde existe perda de cabelo/pelos, o que pode ser evidente nuns casos e pouco notório noutros. As áreas onde os cabelos/pelos foram arrancados podem apresentar cabelo/pelos de tamanho diferentes e em vários estádios de crescimento. Também existe muitas vezes uma área geométrica de perda de cabelo que é identificável. Uma erupção ou outras alterações cutâneas devem ser tidas em conta pelo especialista pois podem conduzir a outro diagnóstico. O médico deverá fazer também um exame abdominal minucioso para verificar se existem massas, dor, entre outros sintomas, que indiquem que houve ingestão de cabelo.

Tratamentos disponíveis

O tratamento pode envolver várias especialidades. O doente pode ser avaliado e acompanhado por um médico de Clínica Geral, um dermatologista, um psiquiatra e um psicólogo clínico. As terapias estudadas para o tratamento da tricotilomania são a terapia cognitivo-comportamental ou o treino de reversão de hábitos. Pode também ser utilizada medicação, que pode variar de acordo com o caso específico. O prognóstico é melhor quanto mais precocemente a doença é diagnosticada e o tratamento iniciado.

*Pereyra AD, Saadabadi A. Trichotillomania. [Updated 2018 Apr 2]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2018 Jan. The National Center for Biotechnology Information (NCBI)

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Especialidades em foco neste artigo

Revisão Científica

Dra. Ana Peixinho

Psiquiatria
Hospital Lusíadas Lisboa, Clínica Lusíadas Parque das Nações
PT