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Identidade de género: o que fazer quando o seu filho não se identifica com o género?

Se um jovem não se identifica com o género atribuído à nascença, os pais devem estar disponíveis para ouvir e dialogar, auxiliando-o neste processo.

Mas o que é isto da identidade de género? “Sou eu a sentir que de facto o género com o qual nasci se ajusta [ou não] aquilo que são as características que identifico da minha personalidade”, esclarece Marta Marques, psicóloga na Clínica Lusíadas Almada

Quando o sentimento é de desajustamento face ao género, há que apoiar o jovem nesta sua construção da identidade. Fala-se, por isso, em diferentes categorias de identidade de género, como por exemplo:

●    Cisgénero: quando uma pessoa se identifica psicologicamente e socialmente com o sexo biológico
●    Transgénero: quando alguém não se revê no género que recebeu à nascença
●    Não binário: quando a identidade não é representada apenas pelo binómio (homem/mulher)
●    Agénero: quando não se identifica com nenhum género

Adolescência: a idade do questionamento

Estas questões ligadas à identidade de género normalmente surgem durante o processo de adolescência, que é quando “o jovem já tem um conjunto de capacidades para refletir sobre a sua própria identidade”, ainda que possam ser dadas algumas pistas na infância ou, mais comum ainda, na pré-adolescência.

É nesse caminho de construção da identidade que o jovem se vê confrontado com as suas próprias características e com as escolhas que irá fazer. “E essas escolhas partem muito, não só do ponto de vista biológico com algumas definições que podem estar de alguma forma a contribuir para estas mesmas escolhas, como até, do ponto de vista social, das diferentes experiências sociais que vai tendo”, diz a psicóloga. 

Há sinais a ter em conta?

A pergunta é de difícil resposta. “A indumentária, por exemplo, não tem de ser necessariamente um reflexo que não se identifica com o género”, afirma. “Não temos de estabelecer aqui relações de causa e efeito, acho que é sobretudo observarmos o bem-estar do jovem e percebermos quais são os fatores que estão por detrás de um mal-estar ou de um questionamento que começa a ser difícil resolver com as ferramentas que tem.”

Por isso, não são propriamente as escolhas feitas que demarcam a identidade de género, estando mais relacionado com o próprio processo de crescimento. E os sinais que eventualmente possam existir, muitas vezes, são “verbais”, refletindo “um questionamento da própria pessoa”.

Por exemplo, em contexto escolar, Marta Marques já observou jovens que começam por questionar o próprio nome. “Não se sentem confortáveis com o nome por que são chamados.”

Para além do nome, também a utilização de um dado pronome pode refletir alguma insatisfação. “O pronome vai dentro daquilo que melhor conforto traz à identidade que a criança está a construir, e que nós temos de ir aprendendo a respeitar”, declara. 

Ainda assim, neste tema da identidade de género, a especialista alerta: “Não quer dizer que isto aconteça logo numa primeira instância, ou seja, o jovem começa a dar determinados sinais e nós vamos logo ajustar-nos completamente e utilizar o pronome que melhor se ajusta a esses sinais”, diz, esclarecendo: “Nós vamos explorando isso, até que a identidade se comece a consolidar nesse sentido e as coisas passem a ser naturais.”

Identidade de género: o apoio dos pais, da escola e da rede de suporte

A família, a escola e a rede de suporte têm um papel importante no apoio ao jovem, neste processo de questionamento.

O que podem fazer os pais

Cabe aos pais, por isso, apenas ter a capacidade de ouvir, mostrando-se disponíveis e abertos a esse diálogo, de forma “a perceber que esses sinais podem estar presentes e que os filhos podem ter necessidade de falar sobre o assunto”.

Nesta conversa, é importante:

●    Transmitir ao jovem — ou à criança — que ter dúvidas pode ser natural e não precisa de ser vivido com ansiedade. “O jovem está num processo de conflito com ele mesmo e, nestas questões de identidade de género, o conflito ainda é maior, porque, face à identidade que foi construindo e que agora se está a consolidar, tem de a transformar completamente.”
●    Evitar julgamentos. “Partimos para estas conversas sobretudo com as nossas próprias conceções do que é certo e do que é errado, do que esperamos daquela pessoa e do que ela de facto nos está aqui a entregar, e o que é importante é partir para esta conversa sem um julgamento.”
●    Não estar num sistema de alerta máximo. “Devemos atribuir a importância que a situação efetivamente tem, estar atentos, ouvir determinada questão que o jovem ou criança coloca, mas também não estarmos num sistema de alerta máximo, como se este questionamento colocasse em causa aquilo que é, porque isso ainda vai alarmar mais, colocar mais ênfase no processo que ele próprio já está a viver.”

Em muitos casos, são dúvidas que surgem no processo de crescimento, mas que acabam por nem se materializar. “Estas conversas começam nos jovens sem a situação estar definida. É natural — e saudável — durante o próprio processo de identidade haver este questionamento.”

Como age a rede de suporte

Tratando-se de um processo que surge mais durante a adolescência, fase em que há um normal distanciamento da rede familiar, os pais só costumam ser chamados a intervir “quando essas questões começam a não ser respondidas pelo jovem —  por si mesmo ou pela rede de suporte que está mais próxima [os pares]”.

E, se os pais se aperceberem de que não têm as ferramentas necessárias para auxiliar neste questionamento sobre a identidade de género, é importante procurar alternativas. “Até pode ser uma figura dentro da família com quem este jovem tenha uma relação mais próxima.”

Caso não se consiga ajudar através da rede de suporte mais próxima, deve avançar-se para um apoio especializado. “Poderá então pedir-se a ajuda de um psicólogo que consiga orientar o processo, ajudar esta família a chegar a este jovem ou ajudar este jovem a conseguir trabalhar com estas questões.”

O papel da escola

É importante que os pais saibam como se encontra o jovem na escola, “percebendo como é o comportamento, a indumentária que utiliza, a postura em determinados momentos — no intervalo ou mesmo dentro de sala — e que relações de pares é que estabelece.”

Depois, o mesmo que faz a família deve ser replicado na escola. “Se a escola tem conhecimento desta situação ou se a identifica, é natural que procure o jovem dentro daquilo que de facto é a sua capacidade de atuação — e não tem de ser necessariamente feita por uma equipa de psicólogos, mas os jovens normalmente estabelecem relações de maior proximidade com um professor ou tentar perceber se existe alguma figura de referência na escola que consiga apoiar esse processo, pelo menos numa primeira intervenção”, diz a psicóloga. 

Ao mesmo tempo, é importante que a “escola consiga ir comunicando com a família”, relatando as “dificuldades que está a observar ou até, às vezes, quando percebe que, em determinadas situações, essas mesmas dificuldades estão a ser ultrapassadas”.

Por último, defende Marta Marques, deve haver mais formação nas escolas, mas onde os jovens tenham um papel ativo. “Se nós queremos que de facto sejam eles a mudar a forma como têm construídas determinadas conceções ou que sejam eles a sentirem-se bem com as suas próprias escolhas, temos que os pôr numa postura mais ativa. Vejo isto num molde de um programa que é transmitido, por exemplo, através de sessões de esclarecimento.”
 

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Especialidades em foco neste artigo

Dra. Marta Marques

Clínica Lusíadas Almada:
PT