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Puberdade: o que muda no seu filho

A adolescência marca um período de grandes mudanças para os rapazes e raparigas. As dúvidas são muitas, assim como as inseguranças sobre as transformações físicas que estão a acontecer. O pediatra Sérgio Neves, coordenador da Unidade de Pediatria da Clínica de Stº António, na Amadora, explica qual a melhor forma de conversar com o seu filho sobre a puberdade.

Quase de um dia para o outro, a voz dos rapazes muda, as raparigas têm a primeira menstruação, ambos começam a ter pelos púbicos ou a chegar das aulas de educação física com um notório mau odor. Os corpos, no geral, começam a mudar: as raparigas tornam-se mais redondas nas ancas e nas pernas, enquanto os rapazes tornam-se mais musculados.

Estas são algumas das alterações normais que fazem parte da puberdade, mas que podem ser mal compreendidas pelos adolescentes – e até fonte de uma autoimagem negativa. O papel dos pais é essencial nesta altura conturbada de alterações físicas e psicológicas da adolescência.

Por um lado, devem esclarecer as dúvidas que os filhos possam ter, ajudando-os a encarar todas estas mudanças. Por outro lado, é fundamental que haja um reforço positivo de que estas são apenas alterações normais, que não devem ser vistas com vergonha, tristeza ou medo.

O que é a puberdade?

Para que possa esclarecer o seu filho, da melhor forma, sobre as alterações da puberdade, o primeiro passo é obter mais informação sobre esta fase repleta de mudanças. Também os pais ficam, muitas vezes, desconfortáveis ao abordar estas questões. Mas quanto mais informado sobre o tema, mais naturalmente pode conversar com o seu filho.

“A puberdade é o período de aquisição de carateres sexuais secundários, desencadeada por alterações hormonais, terminando com a maturação sexual completa”, explica Sérgio Neves, pediatra especialista em Medicina do Adolescente da Clínica Lusíadas Almada e da Clínica de Stº António. Ao longo deste período, diversas transformações físicas ocorrem, que podem ser mais ou menos visíveis: o surto de crescimento, a mudança de composição corporal, o ganho do capital ósseo (densidade óssea) e a maturação cerebral são alguns exemplos.

Quais as principais mudanças na puberdade?

A puberdade representa alterações comuns e outras diferentes para raparigas e rapazes. Estas são as principais mudanças a ter em conta.

Raparigas:

  • Desenvolvimento do botão mamário (marca o início da puberdade);
     
  • Aumento do volume da mama e projeção da aréola mamária;
     
  • Surgimento dos pelos púbicos;
     
  • Surto de crescimento;
     
  • Acne; 
     
  • Aumento da sudorese (transpiração), acompanhada de odor corporal intenso;
     
  • Possível ocorrência de corrimento vaginal esbranquiçado/amarelado e “moinhas” no abdómen (alguns meses antes da primeira menstruação);
     
  • Aumento da cintura pélvica;
     
  • Primeira menstruação (menarca), que costuma ocorrer 2 a 2,5 anos depois do início da puberdade.

Rapazes:

  • Desenvolvimento testicular (marca o início da puberdade);
     
  • Crescimento mamário (ginecomastia), que desaparece geralmente em um a dois anos;
     
  • Mudança do tom de voz (com uma alternância imprevisível de graves e agudos, até estabilizar num tom mais grave);
     
  • Surgimento dos pelos púbicos e axilares;
     
  • Aumento do tamanho e grossura do pénis;
     
  • Surto de crescimento;
     
  • Aumento da musculatura do tronco;
     
  • Acne;
     
  • Aumento da sudorese (transpiração), acompanhada de odor corporal intenso;
     
  • Primeira ejaculação (espermarca), geralmente durante o sono.

Quando começar a falar sobre a puberdade?

A puberdade começa primeiro nas raparigas, geralmente pelos 9-10 anos. Dois anos mais tarde, em média, iniciam-se as primeiras mudanças nos rapazes. Mas o ideal é começar a abordar o tema da puberdade antes que esta seja visível – de forma a preparar atempadamente o seu filho ou a sua filha para estas alterações.

Não existe, contudo, uma “idade certa” para começar a conversar sobre estas questões. “Estar atento e disponível para o seu filho determinará esse momento”, explica Sérgio Neves, que é também coordenador da Unidade de Pediatria da Clínica de Stº António, frisando que “cada adolescente é único e, além das diferenças de género, também o seu contexto familiar, social e maturidade psicoafetiva determinam os temas de conversa”.

Como o fazer?

Basta lembrar-se da sua própria experiência como adolescente para perceber que conversas formais sobre o corpo podem tornar-se bastante constrangedoras para pais e filhos. Como reforça o pediatra, “os adolescentes geralmente não gostam de abordar assuntos que lhes podem causar embaraço, como sejam as suas mudanças físicas, autoimagem ou sexualidade”.

Por isso, opte por pequenas conversas informais sobre o tema, sem pressão e sem tentar abordar todas as questões de uma só vez. “O assunto pode ser abordado em tema de comentário a um filme, a um livro ou a outro adolescente sobre essas temáticas”, sugere Sérgio Neves. O especialista deixa ainda outros conselhos:

  • Mostre-se sempre disponível para responder a dúvidas do seu filho, mesmo que isso implique interromper uma tarefa laboral ou doméstica;
     
  • Informe-se em sites fidedignos e controlados sobre adolescência;
     
  • Conheça e ouça os amigos do seu filho, até porque poderá perceber melhor o seu grau de conhecimento e dúvidas sobre a puberdade;
     
  • Esteja preparado para a diferença (identidade sexual, atividades, hobbies, projetos futuros);
     
  • Mantenha uma vigilância médica regular, com o apoio dos diferentes profissionais de saúde.

Quais as principais preocupações dos jovens?

Por norma, “as raparigas geralmente preocupam-se mais com o peso/largura da anca e abdómen, com a acne ou a menstruação, enquanto os rapazes estão mais preocupados com a altura, ‘musculatura’ ou o “tamanho do pénis” resume Sérgio Neves. É importante que esteja preparado para responder a perguntas sobre estes assuntos, embora outros receios específicos possam ser prioritários para o seu filho.

Afinal, cada adolescente é único nas suas preocupações. Nunca desvalorize qualquer medo ou desconhecimento que o seu filho possa demonstrar e, se não souber uma resposta, seja sincero. Investigue o tema e volte à conversa, mais tarde, para esclarecer as dúvidas. No caso das raparigas, é também importante que explique, de forma natural, o que é a menstruação e como decorre o ciclo menstrual.

Sinais de alarme

Se a puberdade começar mais cedo ou mais tarde do que o habitual, é importante que o seu filho seja avaliado por um médico especialista, recomenda o pediatra.

Puberdade precoce:

Acontece abaixo dos 9 anos nas raparigas ou dos 10 anos nos rapazes. As suas causas podem ser genéticas, doenças endócrinas, medicação ou, de forma mais rara, tumores.

Puberdade tardia:

Acontece acima dos 13 anos nas raparigas ou dos 14 anos nos rapazes. Sérgio Neves lembra que a puberdade tardia pode ser secundária a lesões do sistema nervoso central, alterações das gónadas, doenças genéticas, desnutrição (incluindo anorexia nervosa) ou doenças crónicas. Existem, contudo, atrasos constitucionais de maturação que podem ser fisiológicos.

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Colaboração

Dr. Sérgio Neves

Pediatria
Clínica de Stº António, Hospital Lusíadas Lisboa
PT