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Consulta pós-COVID: a recuperação depois da doença

Todas as unidades do grupo Lusíadas Saúde têm uma consulta especial para doentes com sintomas pós-COVID.

Nem sempre um teste negativo à COVID-19 é sinónimo de cura. Há muitos pacientes que não se restabelecem após o fim da doença, apresentando uma série de sintomas que, em alguns casos, podem até tornar-se crónicos. “Mesmo após a infeção aguda e após deixarmos de estar a correr o perigo de contagiar terceiros, podemos ter uma doença que ainda não sabemos quando termina”, explica Patrícia Maia, médica de família e coordenadora da equipa de Medicina Geral e Familiar do Hospital Lusíadas Lisboa. 

Ao fenómeno dá-se o nome de síndrome pós-COVID e o seu acompanhamento pode (e deve) ser feito junto de especialistas. Foi para responder a esta importante necessidade que a Lusíadas desenvolveu em todas as unidades, de norte a sul do país, a consulta pós-COVID. “O acompanhamento pós-COVID é multidisciplinar, com intervenção de várias especialidades que se complementam no estudo de cada doente e que são chamadas a ajudar de acordo com os sinais e sintomas manifestados”, adianta a mesma especialista. 

Doença e pós-doença

Identificada no fim de 2019, a COVID-19 espalhou-se em poucos meses por todo o mundo, transformando-se numa pandemia, que gerou uma enorme crise de saúde pública com repercussões que afetaram transversalmente a vida em sociedade. É provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2, na origem de um quadro de sintomas muito variado: parte da população fica assintomática, outra parte apresenta sintomas leves e outra desenvolve sintomatologia grave, com “necessidade de cuidados especializados e até suporte ventilatório”, resume a médica.

Mas não só. Ao longo dos últimos meses, a comunidade médica apercebeu-se de que os efeitos da COVID-19 podem suplantar o tempo de presença do vírus no organismo, tendo-se verificado que um terço dos doentes não voltava ao estado normal após o fim da doença. “Identificámos uma nova face da doença COVID: a síndrome pós-COVID”, diz Patrícia Maia.

Ou seja, já sem o vírus, este grupo de pessoas apresentava sintomas que impediam o regresso a uma vida normal. “Mesmo após a infeção aguda e após deixarmos de estar a correr o perigo de contagiar terceiros, podemos ter uma doença que ainda não sabemos quando termina.”

Patrícia Maia destaca que esta síndrome não está relacionada com a gravidade da doença inicial. Ou seja, doentes com uma sintomatologia leve podem vir a ter sintomas fortes na fase pós-COVID. E os médicos já fazem uma distinção: considera-se que a síndrome é aguda quando persiste três semanas após o seu diagnóstico, tornando-se crónica quando os sintomas se mantêm passados 12 meses.  

Causas e sintomas

A síndrome pós-COVID está associada a uma reação exacerbada do sistema imunitário, em que a resposta inflamatória ao vírus acaba por afetar todo o organismo. Entre outros efeitos, essa resposta pode levar “à redução do oxigénio nos órgãos”, especifica Patrícia Maia.

Desta forma, a doença “manifesta-se de forma variada, podendo ser muito incapacitante.” Pode atingir vários órgãos e tecidos: desde o coração, aos pulmões, músculos, sistema nervoso central, pele ou aparelho gastrointestinal.

Também aqui a sintomatologia é variada: dores musculares e articulares, dor abdominal, dor torácica, cansaço respiratório ou cardíaco, arritmias, cefaleias, erupções cutâneas, tosse crónica, desequilíbrio da marcha, alterações sensitivas, alterações da concentração e da memória, do padrão do sono, do humor e do comportamento ou gastrointestinais. Estes sintomas não são explicados por outra condição médica apresentada previamente pelo doente.

Consulta pós-COVID

A nova consulta pós-COVID, disponível em todas as unidades Lusíadas, vai ao encontro de uma tendência mundial dos centros médicos e é resultado da necessidade de resposta para estes efeitos colaterais — que são ainda alvo de investigação médica e científica — do coronavírus SARS-CoV-2. 

É recomendada aos doentes que tenham estado infetados com a COVID-19 que apresentem os mesmos ou novos sintomas quatro semanas após terem tido um teste negativo ou alta clínica. 

A consulta pós-COVID passa por várias fases. A primeira consiste numa avaliação junto de um médico (pode ser feita de forma virtual) em que é analisado o estado do doente. Através de inquéritos abrangentes, que resultam numa história clínica, o doente deverá realizar depois uma série de exames. Numa segunda consulta, que já pode ser presencial e em que o médico já tem consigo o resultado dos exames, faz-se uma avaliação da evolução da doença, encaminhando-se, então, o doente para as áreas especializadas.

Uma avaliação holística 

A primeira fase da consulta pós-COVID deve ser realizada por um médico especializado em Medicina Geral e Familiar, uma vez que, explica Patrícia Maia, é esta a “especialidade que centra em si uma visão holística de cada doente, integrando os seus antecedentes pessoais, familiares, e o seu contexto bio-psico-sócio-económico”

A história clínica do doente passa por quatro pontos: 

•    A caracterização da doença COVID (a gravidade dos sintomas, a duração da doença, se esteve hospitalizado e que impacto psicológico esse internamento teve); 
•    A caracterização dos sintomas pós-COVID (se são os mesmos que teve durante a doença ou se são novos); 
•    A identificação da história de saúde do doente (se tinha doenças pulmonares, cardíacas, diabetes e qual o seu estilo de vida); 
•    A identificação de familiares em risco, que tenham estado infetados com COVID-19 e que também apresentam queixas que podem estar relacionadas com a síndrome pós-COVID. 

É a partir desta história clínica, e dependendo de uma sintomatologia mais leve ou mais grave, que o médico segue um protocolo já estipulado de análises e exames aos órgãos afetados, que é aplicado ao doente. 

Na avaliação seguinte, consoante a evolução da doença e os resultados dos exames, o doente pode ser encaminhado para uma ou várias consultas como Pneumologia, Cardiologia, Medicina Interna, Psiquiatria, Neurologia, Medicina Física ou Reabilitação. Se entre estes dois momentos o doente tiver melhorado e já não apresentar sintomas, terá alta médica. 

É assim, a partir de um tratamento individualizado e de um olhar amplo e multidisciplinar, que a Medicina tenta dar a melhor resposta possível. Mas o estudo da síndrome pós-COVID arrancou recentemente e, sublinha Patrícia Maia, o fator tempo será sempre fundamental para que na ciência se atinjam as metas pretendidas. “Se vamos conseguir controlar e tratar todos os doentes com síndrome pós-COVID só o tempo e a ciência nos darão essa resposta.”
 

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Colaboraçao

Dra. Patrícia Maia

Coordenador da Unidade de Medicina Geral e Familiar

Medicina Geral e Familiar
Hospital Lusíadas Lisboa
PT