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8 factos e mitos sobre a esclerose múltipla

A Esclerose Múltipla é uma doença inflamatória do sistema nervoso central, com uma evolução não linear e efeitos degenerativos difíceis de antecipar, o que dificulta a perceção do diagnóstico e contribui para o estigma social.

A ciência tem vindo a aprofundar o conhecimento sobre a esclerose múltipla e a esclarecer alguns mitos relacionados com esta doença, que afeta cerca de dez mil portugueses.

1. A esclerose múltipla evolui sempre de uma forma constante e progressiva

Mito. A esclerose múltipla (EM) pode assumir diferentes formas, sendo que a evolução da doença pode ser de carácter progressivo (EM primária progressiva), mas mais frequentemente manifesta-se por surtos mais agudos de agravamento (EM surto-remissão) ao longo de vários anos. 

Em certos casos, no caso da EM surto-remissão, a doença não progride e atinge uma fase de remissão permanente. Mas, na maioria das vezes, passados vários anos, a EM atinge uma segunda fase, com um acumular progressivo de sequelas após cada surto. Nos primeiros anos de evolução, é sobretudo uma doença inflamatória do sistema nervoso central, passando posteriormente a ter um componente mais degenerativo (os circuitos inflamados nem sempre recuperam e acabam por degenerar).

Atualmente já existem biomarcadores de sangue (tais como os neurofilamentos séricos) que permitem em certas situações antecipar a ocorrência de surtos. Contudo não é possível muitas vezes no doente individual realizar um prognóstico a longo prazo, nomeadamente a possibilidade de conversão para doença progressiva. A utilização das novas terapias modificadoras da doença pode, no entanto, diminuir o risco de progressão dos doentes. Um estilo de vida saudável, incluindo o controlo dos fatores de risco vasculares e a atividade física também têm um papel no prognóstico a longo prazo.

A EM pode assim apresentar-se sob três diferentes formas:

Esclerose múltipla de Surto-Remissão:

É a forma mais frequente, representando cerca de 80% dos novos casos diagnosticados. Caracterizada por défices neurológicos que surgem abruptamente em alguns dias e podem durar algumas semanas (surto), dos quais os doentes recuperam de forma parcial ou total. Trata-se de um processo sobretudo inflamatório, embora possa também existir degeneração (morte celular).

Esclerose múltipla secundária progressiva:

Um doente com EM de surto-remissão pode, a determinado momento e passados vários anos, evoluir para uma fase progressiva da doença, com surtos menos frequentes, mas com acumulação progressiva de defeitos neurológicos, tendo como resultado a perda de funções e uma incapacidade progressiva.

Apesar de existirem determinados aspetos clínicos ou paraclínicos que nos permitem perceber se determinado doente tem maior probabilidade de se manter na forma surto-remissão ou progredir para uma forma secundariamente progressiva, a transição é gradual e o diagnóstico na sua maioria é feito à posteriori.

A taxa de progressão de uma forma surto-remissão para uma forma secundariamente progressiva aumenta ao longo do tempo, e é bastante variável (20% - 60% dos doentes, 10 a 20 anos após o diagnóstico). Esta variação ocorre desde a introdução das novas terapias modificadoras da doença, que levam a um atraso na conversão para esta forma mais grave.

Esclerose múltipla primária progressiva:

De difícil diagnóstico, consiste numa incapacidade progressiva, que evolui linearmente desde a fase inicial da doença, sem que se verifiquem surtos clinicamente identificáveis. Nesta forma de EM, a inflamação é mínima e o que predomina é a degeneração do sistema nervoso. 

2. A Esclerose múltipla tem tratamento

Facto. A ciência não encontrou ainda uma cura para esclerose múltipla. No entanto, existem atualmente terapias modificadoras da doença, que previnem surtos e diminuem a incapacidade a longo prazo. Existem vários tratamentos disponíveis com diferentes mecanismos de ação, modos de administração (orais ou injetáveis), nível de eficácia e contraindicações, sendo que a decisão terapêutica deve ter em conta as orientações clínicas mas deve também ser personalizada tendo em conta as características individuais do doente.

Nos surtos poderá estar indicado o uso de corticoides em certas situações, que têm o objectivo de acelerar a recuperação dos défices. Existem igualmente tratamentos sintomáticos, recomendados para tratar algumas queixas dos doentes tais como a dor, a fadiga, a espasticidade e as alterações de esfíncteres.

3. A esclerose múltipla impede a gravidez

Mito. A mulher com esclerose múltipla pode engravidar. “Mas idealmente a gravidez deve ser planeada para se poder ajustar o tipo de tratamentos e a altura mais correta de algumas infusões”, alerta Carolina Pires. Parece que a própria gravidez tem um papel imunomodulador no sistema imunitário, dirigindo-o para uma ação protetora da doença à semelhança do que acontece com algumas terapias modificadores da doença já utilizadas. Assim, durante a gravidez a taxa de surtos diminui e no pós-parto existe uma maior probabilidade de haver novo surto, sendo que deve ser retomada a terapêutica assim que possível (nos casos em que esta foi suspensa temporariamente) de acordo com fatores individuais de cada doente e específicos de cada tratamento.

4. A esclerose múltipla afeta mais os países de maior latitude

Facto. Os estudos demonstram que a incidência de esclerose múltipla aumenta com a latitude (com prevalência mais alta em regiões como o Canadá, Estados Unidos, Escandinávia e Austrália). Tradicionalmente os dados de prevalência sugeriam uma maior frequência da doença em caucasianos, mas este dado tem sido desafiado em estudos de prevalência mais recentes, onde parece ser mais importante a latitude de nascimento e não tanto a etnia. 

A ciência não encontrou até agora uma justificação para o facto, mas postula-se que exista uma combinação de fatores ambientais e socioeconómicos.  Em Portugal, segundo dados recentes a prevalência da EM é de aproximadamente 60 por 100 000 indivíduos, afetando cerca de 10 mil pessoas.

5. A pessoa com esclerose múltipla não pode trabalhar

Mito. A incapacidade provocada pela doença varia de pessoa para pessoa e evolui com o tempo, sendo essa avaliação quantitativa feita pelo médico. A escala de incapacidade que utilizamos atribui uma pontuação a cada um dos defeitos que encontramos no exame neurológico e outras queixas e permite-nos quantificar essa incapacidade e segui-la ao longo do tempo.

O doente pode trabalhar se não tiver incapacidade ou se tendo alguma, poderá ser sugerido a sua adaptação, como trabalhar a tempo parcial ou em casa. O que verificamos é que a maioria dos doentes tem medo de falar da doença pelo estigma social que representa a EM.

Existem determinados defeitos neurológicos que não permitem que o doente faça oito horas de trabalho consecutivas em pé e a inflexibilidade em termos laborais muitas vezes acaba por levar à incapacidade para o trabalho.

6. A esclerose múltipla é causada por uma multiplicidade de fatores, genéticos e ambientais

Facto. A esclerose múltipla é uma doença autoimune — o organismo passa a reconhecer determinados componentes do sistema nervoso central como não sendo dele e desencadeia um ataque imunológico que resulta na doença.

A origem dessa resposta imunológica não está identificada (contudo atualmente a investigação estuda o potencial papel patogénico do vírus Epstein-Barr como o desencadeante inicial de uma resposta imunológica anormal) e pensa-se que possa não existir uma causa única, tendo a investigação sempre considerado a inter-relação entre fatores genéticos e ambientais.

7. A pessoa com EM vai deixar de conseguir andar

Mito. As dificuldades em andar e/ou percorrer longas distâncias são uma das principais queixas das pessoas com esclerose múltipla, mas segundo as estatísticas, apenas um em cada quatro (25%) acaba de facto por perder totalmente a mobilidade, tornando-se dependente da cadeira de rodas.

Além de existirem formas da doença mais benignas e cuja incapacidade não progride, como referido previamente o arsenal terapêutico atualmente existente veio alterar a história natural da doença. No entanto, existem doentes que acabam por perder a capacidade para a marcha mesmo quando utilizadas as medidas farmacológicas corretas e a reabilitação.

8. A Esclerose Múltipla afeta mais as mulheres

Facto. A esclerose múltipla é uma doença autoimune — o organismo passa a reconhecer determinados componentes do sistema nervoso central como não sendo dele e desencadeia um ataque imunológico que resulta na doença — e, como todas as doenças deste tipo, afeta mais as mulheres.

As mulheres têm uma probabilidade três vezes maior de desenvolver esclerose múltipla. Por cada homem diagnosticado existem três mulheres afetadas. Apesar se ser mais frequentes nas mulheres, o seu curso tende a ser mais benigno comparativamente aos homens afetados.

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Revisão Científica

Dra. Carolina Pires

Dra. Carolina Pires

Coordenador da Unidade de Neurologia

Hospital Lusíadas Alfragide
Clínica Lusíadas Oriente

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