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Doenças neurodegenerativas explicadas

Sem causas determinadas e altamente incapacitantes, as doenças associadas ao funcionamento do cérebro, denominadas neurodegenerativas, como as doenças de Alzheimer, Parkinson e Huntington, entre outras, têm vindo a aumentar a um ritmo exponencial. Estima-se que só em Portugal 153 mil pessoas são afetadas por algum tipo de demência. A adoção de um estilo de vida saudável pode ser um passo importante na prevenção.

Os neurónios são estruturas de construção do sistema nervoso que inclui o cérebro e a espinal medula. Normalmente, estas pequenas células não se reproduzem ou são substituídas no organismo.

Em várias doenças neurodegenerativas ocorre um processo irreversível que resulta em degeneração e/ou morte progressiva de células nervosas, dando origem a diferentes manifestações conforme o tipo de neurónios afetados, como por exemplo, alterações do movimento na doença de Parkinson ou perda de funções cognitivas nas demências.

As doenças neurodegenerativas são o núcleo deste processo complexo e que envolve várias condições hereditárias e esporádicas. Com a ajuda de José Vale, coordenador da Unidade de Neurologia do Hospital Lusíadas Lisboa, conheça melhor estas doenças.

Mais de 600 doenças neurodegenerativas

O termo neurodegenerativas é genérico, mas abrange, de acordo com a DG Health and Food Safety, organismo da Comissão Europeia, mais de 600 condições que afetam os neurónios do cérebro humano. Das centenas de distúrbios, os mais comuns são a doença de Alzheimer, que se estima ser responsável por 60 a 70 por cento dos casos de demência em todo o mundo, a doença de Parkinson e a doença de Huntington.

Na longa lista de perturbações neurológicas, surge ainda a demência fronto-temporal e as doenças causadas por priões – proteínas anormais auto-replicativas responsáveis pela doença de Creutzfeld-Jakob e pela doença das “Vacas Loucas”.

Doenças do cérebro: causas identificadas

As razões que provocam a destruição progressiva e irreversível dos neurónios ainda são desconhecidas. O neurologista José Vale revela que “se acredita que apenas uma percentagem inferior a 5% das doenças neurodegenerativas sejam causadas por mutações genéticas”. E, embora as causas não sejam bem conhecidas, continua o especialista, “os estudos científicos indicam que, por exemplo, a doença de Alzheimer seja causada por uma combinação de fatores genéticos e ambientais, incluindo vários aspetos relacionados com o estilo de vida”.

O neurologista refere ainda que “as consequências da doença a nível cerebral são bem conhecidas, caracterizando-se por uma perda progressiva dos neurónios (células cerebrais) e das conexões entre as várias áreas do cérebro. O resultado final é uma atrofia cerebral progressiva”.

Tratamento das doenças neurodegenerativas 

Ainda não existem terapias disponíveis para curar a neurodegeneração, apesar das inúmeras pesquisas científicas que procuram compreender o fenómeno. José Vale afirma que “a medicação administrada atualmente para o tratamento da doença de Alzheimer é meramente sintomática e permite apenas uma melhoria transitória dos sintomas, não evitando a progressão da doença”.

O tratamento pode – sublinha - “ajudar as pessoas com doença de Alzheimer a maximizar as funções cerebrais e a manter a autonomia por um período de tempo maior”.

Diagnóstico

O diagnóstico precoce representa, adverte o neurologista, enormes vantagens para o doente e família: “A identificação destas alterações numa fase prematura é importante, pois o tratamento e a adoção de um estilo de vida saudável podem compensar as perdas da memória e evitar a progressão para a fase de demência”.

E acrescenta: “Os fármacos atualmente disponíveis, como os inibidores da acetilcolinesterase (donepezilo, rivastigmina e galantamina) e a memantina não evitam a progressão da doença neurodegenerativa, mas podem ajudar a atenuar os sintomas – alterações da memória de outras funções cognitivas.”

As doenças neurodegenerativas mais comuns

Na doença de Alzheimer existem depósitos de pequenas placas de proteínas que danificam diferentes partes do cérebro e levam à perda progressiva da memória. Como descreve José Vale, “as células cerebrais degeneram e morrem, causando um declínio progressivo da memória e de outras funções cognitivas”.

Trata-se de uma doença cerebral, crónica e progressiva, que atinge múltiplas funções superiores, sem alteração do estado de consciência e com impacto nas atividades de vida diárias. Já no caso da doença de Parkinson, a carência de dopamina afeta os gânglios basais do cérebro, provocando a rigidez e os tremores nos músculos principais do corpo, dois dos sinais mais típicos da condição.

Doença de Alzheimer: fatores de risco

Para além das causas genéticas, como a existência de historial familiar da doença, outros fatores identificados são o envelhecimento. “O risco aumenta significativamente a partir dos 65 anos, sabendo-se que a incidência da doença duplica a cada cinco anos – aos 85 anos o risco é cerca de 30-40%.

Nas pessoas com formas genéticas (raras) os sintomas da doença podem aparecer logo na quarta ou quinta décadas”, aponta. As mulheres parecem ser, continua, “um pouco mais vulneráveis ao aparecimento de DA. E este efeito não depende do facto de elas terem uma maior longevidade que os homens”. A baixa escolaridade, o défice cognitivo ligeiro (DCL) e história de trauma craniano grave ou repetido “parecem também ter um risco mais elevado para demência”.

Ciência dá esperança

A semelhança no mecanismo de morte neurológica entre as duas principais doenças tem conduzido as diversas investigações realizadas até ao momento. Ao identificar as ligações, a comunidade científica tem esperança de compreender os mecanismos da demência, melhorando as hipóteses de encontrar novas terapias e estratégias para ajudar os pacientes. No momento, estão a ser desenvolvidas, em diversos centros de investigação mundiais, um elevado número de fármacos (referência recente a cerca de 19 em fase II de ensaios), com mecanismos de ação e alvos terapêuticos distintos.

Esperam-se avanços significativos na próxima década, uma vez que a maioria destas substâncias encontra-se na fase final dos ensaios clínicos.

Estilo de vida e saúde cardíaca

Múltiplos estudos mostram que a presença de alguns fatores de risco para doença cardiovascular aumenta também o risco de demência. Para se proteger, memorize os conselhos de José Vale:

  • Siga uma alimentação saudável para evitar os fatores de risco vascular, como a diabetes, a hipertensão arterial, a aumento do colesterol e a obesidade;
  • Pratique exercício físico regular, como hábito preventivo das doenças cerebrovasculares, cardíacas e das síndromes demenciais;
  • Mantenha um envolvimento social e intelectual intenso ao longo da vida;
  • Combata a depressão e evite o stresse;
  • Não fume;
  • Consulte um médico aos primeiros sinais da doença;
  • Exceto em casos super selecionados, desaconselha-se a realização de testes de diagnóstico preditivos.

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Especialidades em foco neste artigo

Colaboração

Dr. José Vale

Coordenador da Unidade de Neurologia

Neurologia
Hospital Lusíadas Lisboa
PT