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Doenças raras: o que são?

São doenças que afetam um pequeno número de pessoas quando comparado com a população em geral. Uma doença é considerada rara quando afeta menos de 1 em cada 2 mil pessoas.

Por definição, uma doença é considerada rara atendendo à sua prevalência numa dada população. Porém, é reconhecida uma multiplicidade de características e sintomas, que justifica a classificação adicional das doenças raras de acordo com a sua incidência, raridade, gravidade e diversidade. 

"Têm uma frequência inferior a 1 em 2 mil casos", detalha Maria Lopes de Almeida, especialista em Genética Médica no Hospital Lusíadas Braga. Apesar de raras, e devido à sua pluralidade, a incidência de casos na população é significativo. Estima-se que, no seu conjunto, cerca de 6% da população apresente o diagnóstico de uma doença rara, o que significa que em Portugal existirão cerca de 6 mil pessoas diagnosticadas com uma destas patologias.

Mas qual a sua origem? Há várias e é preciso não fazer confusão: "A maioria das doenças raras são genéticas [cerca de 80%], mas isto não significa que todas sejam causadas por alterações genéticas", diz a especialista. "As doenças raras podem também ter origem autoimune [como a doença de Crohn, por exemplo] ou infecciosa [como a Leptospirose] ou tratar-se ainda de cancros raros", acrescenta. 

Quanto ao número de patologias, estima-se que existam hoje entre cerca de seis a oito mil doenças raras diferentes. "Este número tem tendência a aumentar, porque a evolução tecnológica veio permitir a realização de testes genéticos com uma capacidade de identificação de novos genes cada vez maior (aqui destaca-se a sequenciação massiva), que permite detetar mais novas causas para as patologias raras genéticas". 


As doenças raras têm características comuns?

Apesar da diversidade de patologias e sintomas, é possível identificar algumas características comuns nas doenças raras. A especialista começa logo por indicar a idade em que se manifestam: "Há grupos de doenças raras que, em princípio, os sinais e sintomas estão presentes ao nascimento ou surgem na primeira infância, enquanto noutras é expectável que surjam em idade adulta."

Maria Lopes de Almeida deixa dois exemplos: "A neurofibromatose é uma doença genética que se manifesta na infância, na maioria dos casos logo à nascença. É caracterizada, sobretudo, pelas manchas café com leite e pelas sardas axilares e/ou inguinais", indica.  

“É um dos motivos mais comuns de envio à nossa consulta de Genética Médica. É uma doença monogénica, associada ao gene NF1. A sua frequência é elevada, porque existe uma percentagem significativa de casos considerados de novo. Ou seja, apesar de ser uma doença autossómica dominante, em cerca de 50% dos casos a variante familiar não é aparentemente herdada nem do pai nem da mãe, sugerindo muito provavelmente a sua origem de novo na criança."

"Por outro lado, a doença de Huntington, surgirá na idade adulta", acrescenta. Neste caso, trata-se de uma doença hereditária neurodegenerativa rara do sistema nervoso central, caracterizada por movimentos coreicos (movimentos involuntários, breves, irregulares, repetitivos e indesejados), alterações comportamentais, psiquiátricas e demência. Por norma, os sintomas têm início entre os 30 e os 50 anos de idade, sendo o sinal clássico a coreia, que irá progressivamente afetar todos os músculos.

As doenças raras prevalentes em Portugal

Em Portugal, e em determinadas regiões do país, existem várias doenças raras, prevalentes. É o caso da Polineuropatia Amiloidótica Familiar, da doença de Fabry e da Doença Renal Poliquística autossómica dominante, entre outras.

1. Polineuropatia Amiloidótica Familiar

“Conhecida como a doença dos pezinhos, trata-se de uma doença rara, com 10 mil casos estimados em todo o mundo. No entanto, é uma patologia comum em Portugal — quase metade das pessoas identificadas com esta patologia na Europa são portuguesas —, em particular na região norte do país de Vila de Conde e Póvoa de Varzim”, explica a especialista. 

“Trata-se de uma neuropatia que afeta inicialmente os nervos periféricos, tipicamente com perda de sensibilidade e de força muscular, em particular dos membros inferiores. Além do transplante hepático, existem atualmente alguns fármacos disponíveis que permitem atrasar significativamente o avanço da patologia, especialmente quando iniciados numa fase precoce da doença — sendo, assim, fundamental a identificação destes casos o mais atempadamente possível.”

2. Doença de Fabry

Prevalente na região norte do país, em particular em Guimarães,  é uma doença de transmissão ligada ao cromossoma X. 

“A doença de Fabry é uma patologia de sobrecarga lisossomal progressiva, hereditária multissistémica, caracterizada por manifestações específicas neurológicas, cutâneas, renais, cócleo-vestibulares, cardiovasculares e cérebro-vasculares.”, começa por explicar. “As mulheres tendencialmente apresentam um quadro clínico mais leve, enquanto os homens apresentam a forma clássica, mais grave da doença.”

3. Doença Renal Poliquística autossómica dominante

“Tem, geralmente, início tardio e caracteriza-se pelo desenvolvimento progressivo de quistos renais e pelo aumento bilateral dos rins, com evolução progressiva para doença renal crónica”, indica Maria Lopes de Almeida. “Pode apresentar igualmente manifestações extra-renais, como quístos hepáticos e pancreáticos e é reconhecido risco acrescido para aneurismas intra-cranianos. Até ao desenvolvimento de doença renal crónica terminal, esta doença é, na maior parte dos casos, silenciosa. No entanto, são reconhecidos alguns sinais e sintomas, como cólicas renais, dor lombar ou abdominal, hematúria e infeções urinárias.”

Diagnóstico e tratamento

Na grande maioria dos casos, o diagnóstico é feito a partir de estudos genéticos, que “são realizados em DNA, extraído a partir de uma amostra através de uma colheita simples de sangue periférico”, explica Maria Lopes de Almeida.

A inovação progressiva e tecnológica dos estudos genéticos e, em particular, da sequenciação massiva (Next Generation Sequencing) veio permitir a atual sequenciação rápida e eficiente de todo o genoma humano, sendo capaz de revolucionar as biociências. Destaca-se pelo papel essencial e inestimável na identificação das funções de vários genes, assim como na compreensão do seu envolvimento em várias doenças — sendo expectável um conhecimento adicional crescente para estas doenças e outras a identificar.

Assim, apesar de não existir cura para a maioria das doenças raras, a especialista frisa a importância desta evolução tecnológica e reconhece-a como promissora para a orientação e tratamentos futuros.

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Colaboração

Dra. Maria Lopes de Almeida

Hospital Lusíadas Braga:
PT