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Fascite plantar: como acabar com as dores do calcanhar

Conheça as causas e tratamentos desta inflamação na região do calcanhar.

A fascite plantar consiste numa inflamação na fáscia plantar, um tecido que dá suporte ao pé. Um dos sintomas mais comuns manifesta-se ao acordar: o indivíduo sai da cama, põe o pé no chão, dá os primeiros passos e sente uma dor forte na região do calcanhar. 

“É um fenómeno biológico que se gera pela inflamação da própria fáscia. Há uma camada de células inflamatórias que vão gerar aquela dor, que é uma dor muito marcada”, diz Paulo Amado, especialista em Ortopedia e Traumatologia e coordenador da Unidade de Ortopedia e Traumatologia do Hospital Lusíadas Porto. “É uma patologia muito frequente, vejo mais de duas por dia”, relata o médico. 

Quem sofre de fascite plantar, tende a demorar muito a procurar aconselhamento médico. No entanto, existem tratamentos eficazes para esta patologia, cuja solução, na grande maioria dos casos, não requer um ato cirúrgico.

Fáscia, um tecido que sustenta músculos

A fáscia é o tecido conjuntivo que recobre a musculatura e os órgãos internos do corpo, sendo essencial para a sustentação e movimento dos músculos.
 
Já a fáscia plantar corresponde a uma estrutura grossa, que chega a ter vários milímetros de espessura. Insere-se na apófise inferior do calcâneo (o osso do calcanhar), abre em leque para a frente, acompanhando os dedos do pé. “Esta estrutura é importante para manter o arco do pé”, explica Paulo Amado.

O pé funciona como uma mola que nos ajuda a caminhar. O arco do pé tem um papel importante na impulsão, embora haja pessoas que tenham o pé mais achatado e outras que tenham a curvatura do pé mais pronunciada.

A fascite plantar surge quando há um efeito mecânico que afeta esta estrutura e provoca a inflamação, “na maior parte das vezes junto do calcâneo”, refere Paulo Amado. “O indivíduo começa a referir que, sobretudo quando se levanta de manhã, ao dar os primeiros passos, sente uma dor forte no calcâneo, que vai diminuindo ao longo do dia. É uma dor que tende a piorar e que se torna muito prolongada pelo tempo.”

Causas da fascite plantar

Há mais de uma causa para a inflamação da fáscia plantar. A mais comum deve-se à retração, ou seja, ao encolhimento dos músculos da perna. Começou “a verificar-se que indivíduos que têm fascite plantar apresentam uma retração da cadeia muscular posterior, principalmente do gastrocnémio, que é o conjunto dos músculos posteriores da perna, onde ficam os gémeos”, avança o médico. “Hoje, pensamos que essa retração é a principal causa das fascites.”

Como é que esta retração vai depois produzir uma inflamação na fáscia plantar? Há um efeito em cadeia: “Está provado que existe uma ligação entre o sistema do gastrocnémio com o tendão de Aquiles, do tendão de Aquiles com o calcâneo e do calcâneo com a fáscia plantar”, revela o especialista. 

Fazer exercício sem alongar os músculos e usar sapatos de salto alto são dois fatores de risco, uma vez que podem levar ao encurtamento do tendão de Aquiles, explica o médico. Este fenómeno causa a retração da cadeia de músculos posterior da perna e faz com que o pé não assente no chão exatamente como assentava anteriormente: “Isto são milímetros quase impercetíveis. A pessoa vai caminhar com o passo diferente do normal e isso altera a estrutura biológica do pé, gerando forças anómalas que vão provocar a inflamação da fáscia.”

A obesidade também é um fator que potencia o aparecimento desta patologia. O excesso de peso sobre a estrutura do arco plantar “gera uma força exagerada e também provoca um aumento de pressão sobre a fáscia plantar, com possibilidade de inflamar”, alerta o médico. Nestes casos, a perda de peso é um fator importante na prevenção e resolução do problema.

Sendo o sedentarismo um fator de risco, o exercício físico e os alongamentos são fundamentais para prevenir: “Os alongamentos são uma boa forma de prevenção da fascite plantar”, garante o ortopedista.

Diagnóstico e tratamento

A dor no calcanhar logo de manhã é o grande indicador para o diagnóstico da fascite plantar, sendo a patologia confirmada pelo ortopedista através de uma ecografia ou de uma ressonância magnética ao pé. Estes exames permitem detetar a inflamação no calcâneo, indicando também o estado de desenvolvimento da patologia.

A partir daqui, o médico indica o tratamento. “Analisando se o indivíduo tem retração da cadeia muscular posterior, vamos ensiná-lo a fazer exercícios de alongamento dos membros inferiores”, explica Paulo Amado, acrescentando que estes movimentos têm como objetivo restaurar o bom funcionamento daquela região. 

Há vários exercícios possíveis. Num deles, é utilizado um degrau para pôr o antepé, de forma a tentar alcançar o chão com o calcanhar. Noutro, o indivíduo inclina o pé com a fascite para trás para tentar realizar uma dorsoflexão do tornozelo o mais marcada possível.

Para desinflamar a fáscia, um dos métodos passa por congelar uma garrafa de água de litro e meio (o frio ajuda a desinflamar o tecido) para que esta possa rolar por debaixo do pé. O médico pode também prescrever medicação anti-inflamatória e contra a dor, havendo ainda a possibilidade de indicar o uso de uma ortótese plantar, que é um tipo de palmilha que ajuda no tratamento desta patologia. 

Uma parte significativa dos indivíduos com fascite plantar apresenta melhorias utilizando apenas os tratamentos descritos acima. Caso não se verifique, é recomendado um tratamento conservador, não cirúrgico, em que o médico usa um aparelho de ondas de choque, que tem como objetivo desinflamar a fáscia. “Este tratamento tem um resultado positivo em cerca de 50 a 60% dos casos”, garante o especialista.

Quando se recorre à cirurgia 

Caso nenhuma das soluções indicadas acima surta efeito, poderá ser necessário recorrer a uma fasciectomia seletiva, que é um ato cirúrgico minimamente invasivo. “Num determinado ponto vamos alongar a fáscia plantar. Podemos fazê-lo através de uma cirurgia percutânea [realizada através da pele], em que fazemos uma pequena incisão de menos de um centímetro”, explica o ortopedista.

De acordo com Paulo Amado, com a teoria da retração muscular, “começou a verificar-se que se no mesmo ato cirúrgico fizermos outra pequena incisão na parte de trás do joelho, podemos alongar o gémeo interno, conseguindo melhores resultados.”

Nos casos em que a inflamação se arrasta e não é tratada no início, é frequente o indivíduo começar a desenvolver uma calcificação junto ao calcâneo chamada esporão. Mas a existência deste esporão não é, em si, a fonte da dor que surge na fascite plantar, até porque há pessoas que desenvolvem esta calcificação, mas que não têm qualquer dor, alerta o especialista. Por isso, durante a cirurgia nem sempre se retira esta calcificação. “Podemos tirar o esporão ou não, embora isso não seja o principal. O principal é alongar a fáscia”, garante Paulo Amado.

O tratamento da fascite plantar através da cirurgia é pouco frequente, sendo necessário realizá-la em apenas 10 a 20% dos indivíduos com fascite plantar. 

No entanto, o médico assegura que, por ser minimamente invasiva, o processo de recuperação é muito rápido. Um dia depois da cirurgia, os pacientes passam a fazer exercícios com carga e usam um sapato próprio. E entre 15 dias a um mês depois, já podem levar uma vida normal. 
 

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Colaboração

Prof. Dr. Paulo Amado

Coordenador da Unidade de Ortopedia e Traumatologia

Ortopedia e Traumatologia
Hospital Lusíadas Porto
PT