Fascite plantar: como acabar com as dores do calcanhar
A fascite plantar consiste numa inflamação na fáscia plantar, um tecido que dá suporte ao pé. Um dos sintomas mais comuns manifesta-se ao acordar: o indivíduo sai da cama, põe o pé no chão, dá os primeiros passos e sente uma dor forte na região do calcanhar.
É um fenómeno biológico que se gera pela inflamação da própria fáscia. Há uma camada de células inflamatórias que vão gerar aquela dor, que é uma dor muito marcada. É uma patologia muito frequente.
Quem sofre de fascite plantar, tende a demorar muito a procurar aconselhamento médico. No entanto, existem tratamentos eficazes para esta patologia, cuja solução, na grande maioria dos casos, não requer um ato cirúrgico.
Fáscia, um tecido que sustenta músculos
A fáscia é o tecido conjuntivo que recobre a musculatura e os órgãos internos do corpo, sendo essencial para a sustentação e movimento dos músculos.
Já a fáscia plantar corresponde a uma estrutura grossa, que chega a ter vários milímetros de espessura. Insere-se na apófise inferior do calcâneo (o osso do calcanhar), abre em leque para a frente, acompanhando os dedos do pé. Esta estrutura é importante para manter o arco do pé.
O pé funciona como uma mola que nos ajuda a caminhar. O arco do pé tem um papel importante na impulsão, embora haja pessoas que tenham o pé mais achatado e outras que tenham a curvatura do pé mais pronunciada.
A fascite plantar surge quando há um efeito mecânico que afeta esta estrutura e provoca a inflamação, na maior parte das vezes junto do calcâneo. O indivíduo começa a referir que, sobretudo quando se levanta de manhã, ao dar os primeiros passos, sente uma dor forte no calcâneo, que vai diminuindo ao longo do dia. É uma dor que tende a piorar e que se torna muito prolongada pelo tempo.
Causas da fascite plantar
Há mais de uma causa para a inflamação da fáscia plantar. A mais comum deve-se à retração, ou seja, ao encolhimento dos músculos da perna. Começou a verificar-se que indivíduos que têm fascite plantar apresentam uma retração da cadeia muscular posterior, principalmente do gastrocnémio, que é o conjunto dos músculos posteriores da perna, onde ficam os gémeos. Hoje, pensamos que essa retração é a principal causa das fascites.
Como é que esta retração vai depois produzir uma inflamação na fáscia plantar? Há um efeito em cadeia: Está provado que existe uma ligação entre o sistema do gastrocnémio com o tendão de Aquiles, do tendão de Aquiles com o calcâneo e do calcâneo com a fáscia plantar.
Fazer exercício sem alongar os músculos e usar sapatos de salto alto são dois fatores de risco, uma vez que podem levar ao encurtamento do tendão de Aquiles, explica o médico. Este fenómeno causa a retração da cadeia de músculos posterior da perna e faz com que o pé não assente no chão exatamente como assentava anteriormente: Isto são milímetros quase impercetíveis. A pessoa vai caminhar com o passo diferente do normal e isso altera a estrutura biológica do pé, gerando forças anómalas que vão provocar a inflamação da fáscia.
A obesidade também é um fator que potencia o aparecimento desta patologia. O excesso de peso sobre a estrutura do arco plantar gera uma força exagerada e também provoca um aumento de pressão sobre a fáscia plantar, com possibilidade de inflamar. Nestes casos, a perda de peso é um fator importante na prevenção e resolução do problema.
Sendo o sedentarismo um fator de risco, o exercício físico e os alongamentos são fundamentais para prevenir: Os alongamentos são uma boa forma de prevenção da fascite plantar.
Diagnóstico e tratamento
A dor no calcanhar logo de manhã é o grande indicador para o diagnóstico da fascite plantar, sendo a patologia confirmada pelo ortopedista através de uma ecografia ou de uma ressonância magnética ao pé. Estes exames permitem detetar a inflamação no calcâneo, indicando também o estado de desenvolvimento da patologia.
Em relação ao tratamento, analisando se o indivíduo tem retração da cadeia muscular posterior, vamos ensiná-lo a fazer exercícios de alongamento dos membros inferiores. Estes movimentos têm como objetivo restaurar o bom funcionamento daquela região.
Há vários exercícios possíveis. Num deles, é utilizado um degrau para pôr o antepé, de forma a tentar alcançar o chão com o calcanhar. Noutro, o indivíduo inclina o pé com a fascite para trás para tentar realizar uma dorsoflexão do tornozelo o mais marcada possível.
Para desinflamar a fáscia, um dos métodos passa por congelar uma garrafa de água de litro e meio (o frio ajuda a desinflamar o tecido) para que esta possa rolar por debaixo do pé. O médico pode também prescrever medicação anti-inflamatória e contra a dor, havendo ainda a possibilidade de indicar o uso de uma ortótese plantar, que é um tipo de palmilha que ajuda no tratamento desta patologia.
Uma parte significativa dos indivíduos com fascite plantar apresenta melhorias utilizando apenas os tratamentos descritos acima. Caso não se verifique, é recomendado um tratamento conservador, não cirúrgico, em que o médico usa um aparelho de ondas de choque, que tem como objetivo desinflamar a fáscia. Este tratamento tem um resultado positivo em cerca de 50 a 60% dos casos.
Quando se recorre à cirurgia
Caso nenhuma das soluções indicadas acima surta efeito, poderá ser necessário recorrer a uma fasciectomia seletiva, que é um ato cirúrgico minimamente invasivo. Num determinado ponto vamos alongar a fáscia plantar. Podemos fazê-lo através de uma cirurgia percutânea [realizada através da pele], em que fazemos uma pequena incisão de menos de um centímetro.
Com a teoria da retração muscular, começou a verificar-se que se no mesmo ato cirúrgico fizermos outra pequena incisão na parte de trás do joelho, podemos alongar o gémeo interno, conseguindo melhores resultados.
Nos casos em que a inflamação se arrasta e não é tratada no início, é frequente o indivíduo começar a desenvolver uma calcificação junto ao calcâneo chamada esporão. Mas a existência deste esporão não é, em si, a fonte da dor que surge na fascite plantar, até porque há pessoas que desenvolvem esta calcificação, mas que não têm qualquer dor. Por isso, durante a cirurgia nem sempre se retira esta calcificação. Podemos tirar o esporão ou não, embora isso não seja o principal. O principal é alongar a fáscia.
O tratamento da fascite plantar através da cirurgia é pouco frequente, sendo necessário realizá-la em apenas 10 a 20% dos indivíduos com fascite plantar.
No entanto, por ser minimamente invasiva, o processo de recuperação é muito rápido. Um dia depois da cirurgia, os pacientes passam a fazer exercícios com carga e usam um sapato próprio. E entre 15 dias a um mês depois, já podem levar uma vida normal.