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VPPB: quando o ouvido provoca vertigens

A vertigem postural paroxística benigna leva a vertigens súbitas e intensas. O primeiro passo no tratamento é o diagnóstico correto.

O sistema auditivo tem duas funções fundamentais: fazer-nos ouvir e regular o nosso equilíbrio. Assim, é no ouvido que têm origem algumas das patologias que provocam vertigens, uma forma de perturbação do equilíbrio que nasce da sensação ilusória de movimento, geralmente rotatório, de nós próprios ou daquilo que nos rodeia. Uma das mais comuns é a vertigem postural paroxística benigna (VPPB). “É aquilo a que vulgarmente chamamos a doença dos cristais”, explica José Carlos Rosmaninho Seabra, otorrinolaringologista da Clínica Lusíadas Gaia e do Hospital Lusíadas Porto.

Caracterizada por intensos, súbitos e curtos episódios de tontura após a execução de um movimento rotineiro, a VPPB tem origem no deslocamento dos cristais dos ouvidos: libertam-se do gel onde estão alojados, migrando para os canais semicirculares (geralmente, apenas para um dos três presentes em cada ouvido) do sistema vestibular (ouvido interno), que são também sensíveis a determinado tipo de movimento. 

Em certas situações e pelo seu peso específico, os cristais deslocados vão “estimular a estrutura neuro-sensorial” do canal em que se foram instalar, “obrigando a um impulso nervoso, que dá a ilusão de um movimento que não está a ser feito e que origina a vertigem.”
 

O impacto da VPPB

A VPPB provoca uma sensação de vertigem muito intensa. “Dura tradicionalmente menos de 30 segundos e acontece habitualmente no seguimento de uma mudança de posição”, explica Rosmaninho Seabra. “Por exemplo: a pessoa está sentada e deita-se ou está deitada e vira-se para o lado direito e, passados dois ou três segundos, tem uma vertigem enorme, absolutamente assustadora, em que parece que o quarto e a cama estão a andar à roda. Esta é a situação mais clássica. É extremamente angustiante.”

O tipo de movimento que desencadeia a vertigem depende do canal semicircular em que os cristais se foram instalar. Levantar, olhar muito para cima e para baixo são outras posições que na VPPB levam à ocorrência de vertigens, sendo características da migração dos cristais para o canal semicircular posterior. 

“Quando se introduzem no canal semicircular externo é mais vago: a vertigem pode ser desencadeada por qualquer movimento da cabeça. Mesmo os laterais podem levar a vertigens”, indica o especialista. “A migração dos cristais para o canal semicircular superior é muito rara por questões anatómicas: localiza-se na parte superior do ouvido, portanto só pessoas que têm posições mais bizarras de descanso é que eventualmente podem estar sujeitas a que os cristais aí entrem.”

Pela intensidade, aparecimento repentino e associação da vertigem a movimentos banais do quotidiano, o impacto psicológico da VPPB é grande: “As pessoas ficam extremamente assustadas, com uma grande sensação de incapacidade. Com isto, autolimitam a sua vida”, explica o especialista. ”Antes de irem ao médico, é frequente passarem por uma fase em que têm medo de ir para a cama. Começam a dormir no sofá, porque sabem que, se ficarem direitas, não lhes acontece nada.”
 

Qual é a causa da VPPB?

Transversal a qualquer faixa etária, a VPPB tem tradicionalmente causas específicas: 

  • Pode ser consequência de traumatismos, provocados por quedas, que levam à mudança de posição dos cristais;
  • Pode ter origem noutras doenças como a doença de Ménière ou a neuronite vestibular, situações inflamatórias do ouvido interno que podem precipitar o deslocamento dos cristais;
  • É ainda frequente estar associada ao próprio envelhecimento, sobretudo a partir dos 60 anos.

No entanto, José Carlos Rosmaninho Seabra destaca que, não só o número de casos de VPPB tem vindo a aumentar, como é cada vez mais frequente não ser possível identificar uma causa.

“Há 20 anos, quando comecei a dedicar-me à vertigem, era capaz de ver 50 casos de VPPB por ano. Este ano, tenho visto muito mais do que 50 por mês”, relata. “A maior parte destas VPPB são idiopáticas ou essenciais, expressões que utilizamos quando queremos dizer que a causa é desconhecida.”

Vários estudos têm sido desenvolvidos no sentido de compreender o fenómeno. Mas, por enquanto, sem resultados: “Já se estudou muita coisa, inclusivamente o efeito dos telemóveis, o efeito das microondas, o efeito da poluição atmosférica, mas nunca se encontrou uma correlação positiva. Até agora, quanto se sabe, não há relação nenhuma entre a VPPB e estes fatores.”

Só há um aspeto em que se verificou uma correlação positiva, ainda que numa quantidade muito reduzida de casos: a insuficiência de vitamina D. “Como os cristais são de carbonato de cálcio, o défice de vitamina D pode levar a alterações da estrutura do próprio cristal, facilitando o seu desprendimento”, explica o otorrinolaringologista. “Em doentes que fazem VPPB de forma recorrente, vale a pena dar vitamina D.”
 

Diagnóstico 

Apesar do grande impacto psicológico e social, o tratamento para a VPPB é muito eficaz, dependendo apenas de uma consulta: “O fundamental é um diagnóstico bem feito”, destaca Rosmaninho Seabra. “Isto implica perceber que aquele síndrome vertiginoso é uma VPPB.”

Como é que se percebe? “É relativamente fácil em algumas pessoas: se nos contarem a história de forma correta, relatando crises de vertigem terríveis sempre que, por exemplo, se deitam, olham para cima ou baixo, praticamente temos o diagnóstico de VPPB feito.”

No entanto, depois é necessário confirmar: “Confirmamos o diagnóstico fazendo a prova de Dix e Hallpike, em que vamos tentar reproduzir a vertigem. Sentamos e depois deitamos a pessoa, com a cabeça virada para um lado e esperamos que tenha uma vertigem. Se não tiver desse lado, fazemos o processo para o outro lado.”

Este processo é fundamental para que se descubra o canal semicircular em que os cristais se alojaram indevidamente. E, para isso, é essencial a análise do movimento dos olhos aquando da sensação de vertigem, pelo que o doente tem de manter os olhos abertos. 

“Cada canal semicircular é responsável pelo reconhecimento do movimento em determinado plano, obrigando os olhos a fazerem um movimento nesse sentido. Assim, o movimento dos olhos vai-nos dizer qual é o canal semicircular em que estão os cristais. Os olhos vão funcionar na direção específica daquele canal.”

 

Tratamento

Depois de se descobrir em que canal e em que ouvido estão os cristais alojados, passa-se ao tratamento, que consiste apenas na execução de um conjunto de “manobras específicas” que levam os cristais a regressar ao local correto.

“Fazemos um conjunto de posicionamentos que vão fazer com que, com tempo e paragens, os cristais migrem por ação da gravidade para a extremidade livre do canal semicircular para regressarem ao vestíbulo. Os canais semicirculares só têm uma entrada e saída. Portanto, os cristais só podem entrar e sair por um lado.”

Em cerca de metade dos casos, basta uma manobra para a patologia ficar tratada. Se assim não for, repete-se o processo. Em todos os casos, é isto que basta: a execução de manobras físicas, num processo que não é invasivo e que se executa na consulta. 

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Colaboração

Dr. Rosmaninho Seabra

Otorrinolaringologia
Hospital Lusíadas Porto, Clínica Lusíadas Gaia
PT