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Além da audição, que outra função desempenha o nosso ouvido?

O equilíbrio é uma função importante que depende do bom funcionamento do ouvido

Quando pensamos no ouvido associamo-lo de imediato à audição. No entanto, este órgão é também responsável por outra função que, apesar de mais discreta, é fundamental do corpo:  o equilíbrio — que está presente, quer estejamos parados, quer estejamos em movimento.

“O ouvido é o órgão responsável pela nossa audição e pelo nosso equilíbrio. É constituído por três componentes: o ouvido externo, o ouvido interno e o ouvido médio”, diz Luís Pinto Freitas, especialista em Otorrinolaringologia do Hospital Lusíadas Albufeira.

O ouvido em três partes

O pavilhão auricular, a que chamamos regularmente a orelha, é o único elemento exterior do ouvido. A orelha faz parte do ouvido externo, juntamente com o canal auditivo. No final deste canal encontra-se a membrana do tímpano, que inicia o ouvido médio. Além do tímpano, há a cadeia ossicular composta pelos três ossos mais pequenos do corpo humano: o martelo, a bigorna e o estribo. 

“A função do ouvido externo e do ouvido médio é sobretudo auditiva, já que compõem o aparelho mecânico da audição. Recebem e amplificam o som até ao ouvido interno”, explica o otorrinolaringologista.

No ouvido interno estão duas componentes muito importantes para as duas funções do ouvido: a cóclea, que é responsável pela audição, e o aparelho vestibular, que é responsável pelo equilíbrio. 

Como funciona a audição

“É no ouvido interno que se dá a transdução da vibração sonora em impulso nervoso”, diz Luís Pinto Freitas. As ondas sonoras entram no ouvido pelo canal auditivo e fazem vibrar a membrana do tímpano. Esta, por sua vez, está ligada aos ossículos que vão amplificar o som para o ouvido interno. 

Na cóclea, estas vibrações vão atravessar o líquido que percorre os canais em espiral que dão forma a este órgão. À superfície destes canais existem células que sentem esta vibração e transformam-na em estímulo nervoso que dá a informação ao cérebro e permite-nos ouvir. 

Como funciona o equilíbrio

Enquanto isso, o sistema vestibular faz o seu trabalho contínuo de equilíbrio. “O sistema vestibular coordena o nosso equilíbrio, juntamente com os olhos e o cérebro. Ele deteta em vários planos o movimento da cabeça em relação à gravidade”, refere o médico. “É importante para registar os movimentos do corpo e assegurar que mantemos o equilíbrio.”

O sistema vestibular é composto por várias partes. Tem o utrículo e o sáculo, e ainda três canais semicirculares que estão em posição ortogonal uns em relação aos outros. O utrículo e o sáculo são importantes para detetar a aceleração linear. Os canais semicirculares detetam a aceleração angular.

Luís Pinto Freitas dá o exemplo do elevador para se compreender a aceleração linear. “Num elevador, os olhos não conseguem dar informação sobre o movimento porque estamos fechados num compartimento. Mas conseguimos perceber se estamos a subir ou a descer. Essa sensação é permitida pelo aparelho vestibular, mais concretamente, pelo utrículo e pelo sáculo”, indica o médico.

Por outro lado, a aceleração angular é sentida, por exemplo, quando viramos a cabeça para um lado ou para o outro. Mesmo se estivermos de olhos fechados, conseguimos perceber a mudança da posição da cabeça. Esse fenómeno é possível graças aos canais semicirculares.

“Estes órgãos têm um líquido no seu interior, denominado de endolinfa, bem como algumas partículas minerais. Quando nos movimentamos, o líquido e as partículas movem-se, garantindo a perceção desses movimentos da cabeça”, explica o médico.

 “O movimento do líquido vai estimular várias células que vão responder a esse movimento. Depois, essas células vão enviar a informação ao cérebro, que codifica estes impulsos e que nos diz se estamos em movimento ou não.” 

Doenças que afetam o equilíbrio

Há várias doenças que podem afetar o equilíbrio. Algumas delas afetam pontualmente esta função, enquanto outras podem tornar-se crónicas e piorar a sensação de equilíbrio para o resto da vida. Quatro dessas doenças são a Vertigem Periférica Paroxística Benigna, a nevrite ou neuronite vestibular, a Doença de Ménière e a vestibulopatia bilateral.

Vertigem Periférica Paroxística Benigna (VPPB)

Também conhecida por doença dos cristais, é a patologia mais comum do sistema vestibular e do equilíbrio. Nesta patologia, os cristais que estão situados no utrículo e no sáculo, chamados otocónias, deslocam-se para os canais semicirculares. Não se sabe a causa dessa deslocação, mas quando ela acontece causa uma sensação de vertigem no doente.

“No utrículo e no sáculo, estes cristais são responsáveis pelo nosso equilíbrio, ao detetarem os nossos movimentos”, refere o médico. “Quando vão para os canais semicirculares vão estimular permanentemente as células ciliadas e temos a perceção de que está tudo a girar.” 

O principal sintoma é uma vertigem intensa, sobretudo ao mudar a posição da cabeça quando se está na cama e quando se levanta da cama. Além disso, pode gerar náuseas e vómitos, mas estes são sintomas secundários. 

“O que é mais importante é a descrição de vertigem, que é a sensação ilusória de movimento, quer seja o próprio corpo em movimento, quer seja o exterior. É uma vertigem intensa e de curta duração”, descreve o especialista.

O tratamento da VPPB passa por uma manobra física, coordenada, de movimentos da cabeça guiados pelo médico, que obriga os tais cristais a regressarem dos canais semicirculares para o utrículo e o sáculo. “Temos manobras específicas para cada canal, que têm o objetivo de reposicionar essas partículas”, refere Luís Pinto Freitas. 

Nevrites ou neuronites vestibulares 

São infeções agudas que afetam o nervo vestibular e provocam vertigens muito intensas. Pensa-se que a origem desta patologia seja uma infeção viral que normalmente afeta apenas um dos ouvidos e provoca uma perda súbita da função vestibular do lado afetado.

“Na fase aguda, tem uma vertigem constante”, descreve o médico. Além de ter muita instabilidade na marcha. Esta situação impede a pessoa de conseguir fazer a sua rotina, vendo-se, por isso, obrigada a ir a um hospital. Além da sensação de vertigem aguda, a patologia causa náuseas, vómitos e tendência para quedas do lado que está afetado.

Nestas situações, a primeira coisa que os médicos fazem é despistar se existem problemas mais sérios como um Acidente Vascular Cerebral (AVC), que pode causar sintomas semelhantes. Se o doente não tiver tido um AVC, então é enviado para o otorrino. 

O tratamento passa por controlar os sintomas: as vertigens, as náuseas e os vómitos. Não há uma resposta específica contra a infeção, que acabará por ser debelada pelo corpo autonomamente. No entanto, enquanto sofrer sintomas agudos, a pessoa poderá ter de ficar internado alguns dias, principalmente se não tiver ninguém em casa para o acolher e ajudar nas rotinas de alimentação e higiene. 

Doença de Ménière 

É uma doença crónica, que afeta tanto a cóclea, como o sistema vestibular. Além de perturbar o equilíbrio, leva também a uma perda parcial da audição. “O diagnóstico baseia-se em quatro sintomas principais: a vertigem recorrente, acompanhada de náuseas e vómitos, a perda de audição e zumbidos e a plenitude auricular [a sensação de ouvido tapado]”, enumera o especialista.

Ainda não existe uma explicação definitiva para esta patologia que afeta apenas um dos ouvidos. No entanto, há uma acumulação anormal de endolinfa no ouvido interno, que poderá estar associada a fatores genéticos, vasculares, endócrinos, doenças autoimunes e à própria dieta. 

“No início, pode dar-se uma progressão rápida da doença, havendo depois uma tendência a estabilizar. No entanto, há crises recorrentes de tonturas, vertigens e de perda de audição progressiva, que normalmente estabilizam nos 50, 60 decibéis”, explica o médico. Ou seja, a pessoa deixa de conseguir ouvir sons abaixo destes valores. 

Durante as crises agudas, o doente é medicado para minimizar os sintomas. Mas estas crises podem voltar a acontecer passado um ou dois anos. A tentativa de prevenção passa pela medicação com beta histina, em doses altas, e por uma alteração do estilo de vida. Luís Pinto Freitas recomenda “menos stress, menos fadiga, higiene do sono, uma melhoria da dieta, que passa por diminuir o consumo de chá, café, chocolate, coca-cola, no fundo, de todos os estimulantes”.

Vestibulopatias Bilaterais

Esta patologia pode estar associada a fármacos com efeitos colaterais, que danificam o sistema vestibular. 

Ao contrário das patologias descritas acima, que normalmente afetam um dos ouvidos, as vestibulopatias afetam os dois ouvidos (daí o termo bilateral).

Esta característica tem um efeito pernicioso. É que quando apenas um dos sistemas vestibulares é afetado, a pessoa pode compensar a função do equilíbrio com o ouvido saudável. Neste caso, não existe essa possibilidade de compensação e, deste modo, a patologia evolui para uma situação crónica.

Além de fármacos — como aminoglicosídeos usados no tratamento de infeções urinárias ou as quimioterapias contra o cancro —, infeções como a meningite ou doenças autoimunes podem provocar uma vestibulopatia bilateral. Em todas estas situações há uma destruição das células do ouvido. Assim, além do risco de surdez, esta patologia pode provocar tonturas.

“Na fase aguda, temos a vertigem, acompanhada por náuseas e vómitos. Na fase crónica, o doente pode queixar-se apenas de instabilidade na marcha ou de desequilíbrio. Pode haver zumbidos e surdez associados quer a uma, quer à outra fase”, explica Luís Pinto Freitas. 

Fase aguda e fase crónica

A diferença entre fase aguda e crónica, que é bem diferenciada no caso das vestibulopatias bilaterais, é uma distinção importante que se revela principalmente nos sintomas. Apesar de na fase aguda destas patologias haver uma sensação forte de vertigem, a maioria das pessoas consegue ultrapassar esta etapa, passando a ter uma vida normal, com a ajuda do ouvido que não foi afetado pela doença.

No entanto, os doentes que não recuperam totalmente a função vestibular, embora não vivenciem uma situação de vertigem aguda, passam a ter uma sensação de instabilidade constante. “Têm a sensação de que estão num barco,  de que há qualquer coisa que não está bem”, descreve o otorrinolaringologista. 

Sobretudo devido à vestibulopatia bilateral, tornam-se, assim, em doentes crónicos, com um risco de queda que permanece para o resto da vida. Mas existe resposta médica: a reabilitação vestibular. “É uma espécie de fisioterapia dirigida”, diz Luís Pinto Freitas. Esta reabilitação “não visa recuperar a função, mas sim substituir por outras funções: melhorar a adaptação ao equilíbrio, treinando a propriocepção e a visão”, acrescenta o médico.

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Colaboração

Dr. Luís Pinto Freitas

Coordenador da Unidade de Otorrinolaringologia

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