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Cataratas: o que é, quais os tipos e como tratar

Mais conhecida enquanto doença associada a pessoas idosas, a catarata resulta da deterioração do cristalino e pode ter diversas causas. Quando não tratada, esta doença pode provocar cegueira. A boa notícia é que há um tratamento eficaz.

É uma das doenças mais associadas à cegueira. A catarata, que afeta frequentemente pessoas com mais de 60 anos, vai surgindo pouco a pouco, deteriorando a visão. Apesar de existirem vários tipos de cataratas, o tecido atacado é sempre o cristalino. O nome “catarata” vem da Pérsia Antiga, explica José Pedro Silva, médico oftalmologista e coordenador da Unidade de Oftalmologia do Hospital Lusíadas Lisboa: “Deve-se ao facto de os médicos na Antiga Pérsia atribuírem a causa da opacificação do cristalino à queda de um humor líquido corrupto nos olhos (catarata).”

A cirurgia de remoção da catarata, que substitui o cristalino por uma lente apropriada, permite que os doentes recuperem a visão perdida. Neste artigo, explica-se passo a passo o que são as cataratas, quais os sintomas associados, e o seu tratamento.

O que é o cristalino

A catarata traduz-se pela perda de transparência do cristalino, que é uma lente natural localizada no interior do olho, atrás da íris. O cristalino é transparente, permitindo que a luz o atravesse. É este tecido que recebe os raios de luz que chegam ao olho e que os foca na retina, onde são formadas as imagens.

“O cristalino está também envolvido no processo de acomodação, que permite a visão de perto, necessário para atividades como a leitura ou o uso do telemóvel”, explica ainda Guilherme Neri, médico oftalmologista da Unidade de Oftalmologia do Hospital Lusíadas Lisboa, especialista em cirurgia implanto-refrativa, onde se inclui a cirurgia de catarata.

Causas

A catarata é um processo degenerativo que acontece quando há “alterações nas células do cristalino que levam à retenção de água, resultando na perda de transparência (opacificação) do mesmo”, explica Guilherme Neri.

Além da perda de transparência, há também uma perda da elasticidade do cristalino. Deixando de ser transparente, os raios de luz vão tendo mais dificuldade em atravessar a nossa lente natural, originando a perda de visão.

A causa mais comum deste processo é o avanço da idade, dando-se o nome de catarata senil. Nestes casos, as cataratas tendem a atacar os dois olhos, embora num olho a situação possa ser mais severa do que no outro. A deterioração do cristalino pode iniciar-se pelos 45-50 anos, mas há doentes que começam a sentir os sintomas só depois dos 60 anos.

Não se sabe qual a causa exata para o aparecimento da catarata senil, mas Guilherme Neri explica que faz parte dos efeitos normais do avanço da idade. “O envelhecimento provoca perda de eficácia da regeneração das células, afetando vários órgãos do nosso corpo. O mesmo ocorre no cristalino, levando às alterações” referidas acima, diz o médico.

Outros tipos de cataratas

Existem outros tipos de cataratas que podem ser adquiridos ao longo da vida. Há cataratas traumáticas, causadas por algum tipo de trauma ocular. Há ainda as cataratas metabólicas, causadas por doenças como a diabetes. “A diabetes leva a um aumento de glicose em circulação no corpo, o que também acontece em redor do cristalino. O aumento da glicose leva a alterações no cristalino que favorecem o aparecimento de cataratas”, explica Guilherme Neri.

No entanto, há cataratas que são congénitas. Ou seja, os bebés nascem com a doença. Estas cataratas devem ser diagnosticadas o mais cedo possível, pois podem causar uma diminuição irreversível da visão. A mais perigosa é a ambliopia profunda, que afeta um dos olhos da criança. “Esta situação, frequentemente, não é detetada pelos pais ou familiares porque a criança vê bem do olho não afetado e faz a sua vida normal, sem queixas”, explica José Pedro Silva. “Daí a importância da observação por um médico oftalmologista durante o primeiro ano de vida.”

Sintomas

O principal sintoma da catarata é a perda da visão gradual, que não é corrigível com os óculos. Mas há outros sintomas: visão turva, dificuldade de leitura com pouca luz, diminuição da visão à noite, a presença de halos à volta das luzes, visão dupla.

Em alguns casos, pode ocorrer dor ou vermelhidão do olho causadas pela catarata. “Por vezes ocorre um fenómeno característico: ‘uma segunda visão’, com o aparecimento da capacidade de ler sem óculos em doentes com mais de 55 anos, devido a miopização induzida pela catarata”, explica ainda José Pedro Silva.

Prevenção e tratamento

Não há um medicamento que previna as cataratas. Mas existem cuidados que podem atrasar o seu aparecimento, como o uso de óculos de sol com lentes que protegem da radiação ultravioleta. José Pedro Silva adianta também que o consumo regular de alimentos ricos em vitaminas A, C e E pode “ter algum efeito na prevenção”, embora não se tenha provado este benefício quando se usam suplementos de vitaminas.

Em relação ao tratamento, a única possibilidade é a cirurgia, que reverte a situação até mesmo quando a catarata já provocou a cegueira. “Na ausência de outras alterações no olho, é expectável a recuperação da visão, independentemente do grau de diminuição de visão que o doente apresentava antes da cirurgia”, afirma Guilherme Neri. No entanto, “o grau de evolução da catarata torna a cirurgia mais complexa”. Por isso, quanto mais cedo se fizer a operação, melhor.

Um processo rápido

A cirurgia passa pela remoção da catarata (e do cristalino), que é substituída por uma lente transparente, permitindo que a luz atravesse sem dificuldade, e volte a criar uma imagem nítida na retina. “Deste modo, é possível a recuperação da visão, uma vez que é colocada uma lente intraocular que permite a focagem dos raios de luz na retina”, refere Guilherme Neri.

O processo de remoção e substituição do cristalino demora entre 15 e 20 minutos. Normalmente, a pessoa está acordada durante o processo, recebe apenas uma anestesia por gotas que a impede de sentir dor no olho. “Por uma questão de segurança, é realizada a cirurgia de um olho de cada vez, programando-se a cirurgia do outro olho para um segundo momento”, diz o médico.

Pós-operatório em casa

Regra geral, as pessoas podem regressar a casa no mesmo dia da cirurgia. Nos primeiros dias, o doente tem de seguir alguns cuidados, evitando movimentos bruscos, esforços e protegendo os olhos de sujidades que possam entrar nos olhos, como poeiras, para evitar infeções. Além disso, é necessário colocar regularmente gotas com antibióticos e anti-inflamatórios “para ajudar na recuperação da cirurgia”, diz Guilherme Neri. Mas, adianta o médico, passados três ou quatro dias, a maioria dos doentes volta a fazer a sua vida normal.

Benefícios da cirurgia

Além de recuperar a visão perdida, a cirurgia às cataras pode corrigir outros problemas da visão ao personalizar-se a lente que substitui o cristalino, tendo em conta se a pessoa tem miopia, hipermetropia ou astigmatismo.

Por fim, pode ainda tratar-se a presbiopia, também conhecida por vista cansada, que surge normalmente a partir dos 40 anos e está ligada à perda de flexibilidade do cristalino, que dificulta a focagem dos objetos que estão próximos dos olhos.

“Nos últimos anos têm surgido novas lentes intraoculares para a correção da presbiopia associada à cirurgia da catarata, nomeadamente as lentes acomodativas e multifocais”, refere José Pedro Silva, acrescentando que com estes avanços, há um ganho acrescido na visão funcional dos doentes. “A visão funcional corresponde à capacidade de reconhecer faces e expressões faciais, ler o jornal, conduzir à noite e não está diretamente relacionada com a acuidade visual.” Segundo o médico, esta melhoria traduz-se na “satisfação dos doentes e independência de óculos nas atividades diárias”.

Em suma

Há várias causas que podem provocar as cataratas, uma deterioração do cristalino que gradualmente vai impedindo a visão. Apesar de não haver uma estratégia para evitar esta doença, a cirurgia é um procedimento eficaz que restaura a visão perdida e pode tratar outros problemas como a miopia, o astigmatismo e a vista cansada.

Revisão Científica:

José Pedro Silva, médico oftalmologista e coordenador da Unidade de Oftalmologia do Hospital Lusíadas Lisboa

Guilherme Neri, médico oftalmologista da Unidade de Oftalmologia do Hospital Lusíadas Lisboa

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Doenças dos Olhos

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