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Ansiedade na adolescência: o impacto da pandemia e soluções para lidar

Os números falam por si e não deixam margem para dúvidas. Mas há formas de contornar o distúrbio da ansiedade nos mais jovens.

Já conhecemos bem o impacto que a pandemia da COVID-19 teve na vida de todos — afinal, nunca antes o mundo experienciou um período assim. E se para os adultos esta é uma realidade dura, o que dizer dos adolescentes que têm de conviver com mudanças radicais na etapa mais peculiar das suas vidas? 

Um estudo de análise, realizado à escala global, estimou que um em cada quatro jovens (25,2%) apresenta sintomas de depressão elevados e um em cada cinco (20,5%) sintomas de ansiedade altos devido à pandemia. Este trabalho, uma metanálise de 29 estudos em que participaram 80.879 jovens de várias regiões do mundo, foi realizado por cientistas da Universidade de Calgary, no Canadá, e publicado na revista científica JAMA Pediatrics, em agosto de 2021. A procura por psicólogos, por sua vez, registou um aumento exponencial (450%) na primeira quinzena de janeiro de 2021, face ao ano anterior. A conclusão foi de um estudo da Fixando, realizado a 14.300 inquiridos entre os dias 22 e 24 de janeiro.

“Os adolescentes e os jovens tiveram repercussões específicas pelas suas particularidades”

“Trabalhando numa equipa multidisciplinar dedicada ao adolescente tenho referenciado um número crescente de casos para acompanhamento por psicologia e/ou avaliação por pedopsiquiatria”, aponta Hugo Braga Tavares, pediatra e responsável pela Centro Multidisciplinar do Adolescente do Hospital Lusíadas Porto

E faz a seguinte ressalva: “É importante distinguir uma perturbação de ansiedade (mais rara, mas também com incidência crescente) de sintomas que são classicamente descritos como associados à ansiedade (falta de ar, dores de cabeça, dores no peito, enjoos, tristeza, stress, ‘nervosismo'). Estes sim, aumentaram de forma significativa. Ou seja, nem tudo será necessariamente uma perturbação de ansiedade que tem características próprias, de maior gravidade e exige intervenção mais especializada”. 

Inês Almeida, psicóloga na Clínica Lusíadas Gaia, afirma que a pandemia e o confinamento tiveram um impacto muito negativo na saúde mental dos jovens, principalmente porque os conduziu a situações de isolamento social, depressão, ansiedade generalizada e fobias: “Foi uma mudança muito brusca e inesperada nas suas rotinas e com consequências nefastas e inevitáveis no relacionamento social com o outro”. 

Para Hugo Braga Tavares, os adolescentes e os jovens tiveram repercussões específicas pelas suas particularidades. “Em alguns casos, houve mesmo alguns benefícios da diminuição da socialização e exposição a ‘stressores sociais’, mas é um facto que, para a maioria, a situação vivida nos últimos tempos teve repercussões muito negativas”. 

Fatores que conduziram a esta realidade 

De acordo com o pediatra, as principais consequências na saúde mental são muitas e devem-se a vários fatores: 

1. Infeção e doença COVID

Fomos “invadidos” por uma doença algo imprevisível na forma como se transmite, como se manifesta e na sua gravidade. Muitos jovens perderam familiares próximos e/ou tiveram doença mais ou menos sintomática. A desinformação (resultante sobretudo do excesso de informação) contribui muito para o receio generalizado”, considera.

“Muitos jovens manifestam não tanto o receio de que algo lhes possa acontecer se infetados, mas mais o medo de poderem infetar os familiares/próximos — e que estes, pela idade ou doenças coexistentes, possam vir a ter doença mais severa ou mesmo morrer. A forma como decorreu a discussão sobre as vacinas para este grupo etário em nada ajudou na tomada de uma decisão consciente e ponderada.”

2. Vivência familiar

Os confinamentos motivaram experiências de vivência familiar diferentes daquela que existia antes da pandemia. Em alguns casos, esta proximidade foi sentida e vivida de forma muito positiva, mas noutros revelou-se um penoso exercício de convivência entre pais e filhos ou irmãos. 

Muitas famílias não resistiram a este período e o número de separações e divórcios aumentou significativamente, com consequências relevantes para a saúde mental dos adolescentes e jovens. Muitas famílias não funcionavam bem antes da pandemia e um aumento da exposição diária associada à eliminação dos momentos diários que muitos jovens sentiam como os únicos positivos no seu dia a dia (escola, atividades) foi muito negativa para alguns adolescentes e jovens.

3. Escola online

Se para alguns as aulas virtuais revelaram aspetos positivos, para a maioria (incluindo para aqueles que não puderem ter acesso às mesmas, pela falta de condições) traduziram-se em oportunidades de aprendizagem perdidas e, em alguns casos, irrecuperáveis. Alguns jovens sentiram essa perda e enfrentam ainda as dificuldades que a mesma provoca na aprendizagem diária.

4. Atividades lúdicas

A ausência de atividades físicas, musicais, mesmo que em parte substituídas pelas modalidades online, teve também um impacto significativo na vida e saúde (física e mental) dos adolescentes.

5. Aumento de tempo de ecrãs

Reportado por todos, até pelos jovens, o aumento do tempo passado nos ecrãs criou uma realidade que dificilmente regressará aos níveis de uso pré-pandemia, roubando tempo em família e de convívio offline. Por outro lado, é de destacar a capacitação tecnológica que esta geração teve com todo este processo.

6. Projetos adiados

Uma das maiores virtudes de ser jovem é poder sonhar. Todos os jovens têm os seus planos, objetivos e metas. O isolamento a que se viram (ou se veem) forçados levou ao adiar de muitas experiências — as festas, os encontros, as viagens, os concertos, os namoros. Em alguns casos, houve mesmo experiências perdidas. Os jovens sentem isso e essa restrição interfere com a forma como cresceram, se sentem no dia a dia e projetam o futuro.

Principais causas para a ansiedade na adolescência

Além de todas as circunstâncias ligadas à pandemia, são muitos os aspetos que favorecem a ansiedade na adolescência, explica a psicóloga Inês Almeida. “A vivência em ambientes conflituosos e/ou incertos, o bullying, a incapacidade para lidar com a frustração, a mudança de escola, os amigos ou as alterações bruscas de contextos (cidade ou país).”

Hugo Braga Tavares acrescenta ainda “a questão do desempenho académico — preocupação excessiva ou, pelo contrário, o desinteresse total —, bem como o crescente uso das tecnologias que traz para a linha da frente o uso desregrado e não adequado das mesmas (à cabeça as redes sociais) como uma das principais causas para estes sintomas”.

“A adolescência é a etapa da vida em que definimos a nossa identidade física, psicológica, sexual e moral. O processo é feito com avanços e recuos, certezas e incertezas, e certezas de novo. E os adolescentes têm que fazer este processo ao mesmo tempo que treinam (forçam) a sua autonomia dos modelos parentais (o seu porto seguro na infância) com os conflitos que daí decorrem”, adianta o pediatra. 

“Viram-se muito para os pares e a opinião destes é fundamental e ‘lei’.  É também a fase em que se decide o seu futuro profissional. Por tudo isto, é perfeitamente natural que seja uma época de especial suscetibilidade a esta problemática.”

Os fatores de risco podem ser determinantes, alguns decorrentes da vulnerabilidade associada ao processo de crescimento: “Destacaria como elemento fundamental o modelo e o apoio parental/familiar e a forma como este afetou o crescimento do adolescente/jovem desde a sua infância. A forma como a família acompanha os jovens no seu processo de crescimento e a comunicação entre todos é crucial. O grupo de pares é também muito importante, assim como as oportunidades de acesso à informação e à formação”, remata o pediatra.

Diagnóstico e tratamento

Muitas vezes, os próprios adolescentes e jovens dão pistas dos sintomas e do seu mal-estar: “Devemos estar atentos a oscilações de humor persistentes e que perturbem as relações familiares, o isolamento marcado (os adolescentes precisam do seu espaço, mas precisam também de ter os educadores por perto), o desinteresse pelas atividades de socialização (sobretudo com os pares), a desmotivação académica, a perturbação do sono… Estas são algumas bandeiras vermelhas a ter em conta”, alerta Hugo Braga Tavares. 

“Conversar com os adolescentes e os jovens permite perceber até onde este comportamento é ‘funcional’ ou se é já uma manifestação que deva causar preocupação”, acrescenta. Na dúvida, deverá ser marcada uma consulta com um profissional de saúde para avaliar a situação, fazer o diagnóstico e estabelecer um plano terapêutico adequado. 

Segundo a psicóloga, é importante que seja realizada uma “avaliação psicológica recorrendo a entrevista, observação, testes projetivos, sempre com o intuito de perceber a sintomatologia e consequente diagnóstico”. 

Já o tratamento depende da gravidade do quadro clínico: “Muitas vezes, a oportunidade de falar sobre o tema (em família ou em contexto de consulta) é, em si, terapêutico. O principal objetivo é identificar os motivos para os sintomas e procurar soluções para os mesmos. 

Situações mais graves podem precisar de apoio psicológico mais estruturado e/ou medicação”, avança o pediatra. A psicóloga acrescenta ainda técnicas “como o mindfulness, o relaxamento, a terapia cognitivo-comportamental, entre outras”. 

Sinais de alarme e como lidar com o problema 

Tal como referido acima, é importante — senão crucial — que os pais estejam atentos a todas as alterações no comportamento dos filhos, nomeadamente, no sono, alimentação, relacionamento interpessoal (família, grupo de pares) ou mesmo rendimento escolar. 

Inês Almeida considera que a melhor forma de os pais ajudarem os filhos passa por incentivá-los a procurar ajuda profissional, sem os julgar — e demonstrando alguma empatia face à situação.

“Certamente, os pais também já experienciaram sintomatologia ansiosa e/ou depressiva. É importante transmitir essa empatia e tranquilizar os filhos para que os possam ajudar e, consequentemente, para que a intervenção psicológica seja eficaz.” 

Hugo Braga Tavares sublinha: “Disponibilidade (verdadeira, não daquela em que se olha para o telemóvel ou televisão, enquanto se diz ‘diz lá o que é’), tempo e acompanhamento/atenção contínuos são as melhores armas para prevenir, diagnosticar e tratar estas situações. Se se sentirem incapazes de resolver o problema, os pais devem ser honestos e, em conjunto, procurar ajuda especializada”. 

Colaborações:

Hugo Braga Tavares, pediatra e responsável pela Unidade Multidisciplinar do Adolescente do Hospital Lusíadas Porto

Inês Almeida, psicóloga na Clínica Lusíadas Gaia

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