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Enurese: quando a criança faz xixi na cama

De acordo com a experiência de Sofia Deuchande, pediatra do Hospital de Cascais, 10% das crianças continuam a fazer xixi na cama após os cinco anos. A enurese é um problema que pode causar vergonha e ansiedade às crianças, mas que os pais podem ajudar a contornar.

Quando uma criança com mais de cinco anos continua a fazer xixi na cama é habitual que a palavra “enurese” não seja propriamente desconhecida para a família. Isto porque “muitas vezes o pai, a mãe ou um tio tiveram enurese na infância”, explica Sofia Deuchande, pediatra do Hospital de Cascais: “Há uma importante tendência familiar”, justifica.

Aliás, apesar de a enurese ser um foco de ansiedade porque a criança percebe que, ao contrário dos colegas, ainda faz xixi na cama, o facto é que afeta mais de 10% das crianças entre os 5 e os 7 anos. Por exemplo, 1 em cada 10 casos que Sofia Deuchande recebe no Hospital de Cascais são de enurese e os estudos académicos sobre este problema demonstram uma incidência até maior. “A enurese é mais prevalente no sexo masculino”, refere ainda a especialista.

Assim, se o seu filho continua a fazer xixi na cama, saiba do que falamos quando a questão é enurese. E lembre-se: este problema resolve-se com a idade. As respostas e conselhos de Sofia Deuchande, pediatra do Hospital de Cascais.

O que é a enurese?

A enurese corresponde a episódios noturnos de micções involuntárias numa idade em que o controlo voluntário já deveria existir, ou seja, em crianças com idade superior a 5 anos. Atualmente a enurese é considerada exclusivamente noturna, caindo em desuso o termo enurese diurna (que passou a designar-se por incontinência).

Quais as principais consequências da enurese para a criança?

De facto, trata-se quase sempre uma situação transitória e em regra resolve-se até à idade adulta (menos de 2% destas crianças têm enurese além dos 15 anos). No entanto, pode ser fator de stresse, depressão, isolamento dos amigos. Por outro lado, os pais podem ser um fator agravante da situação. Zangarem-se e castigarem os filhos não ajuda.

Quais os fatores de risco?

A enurese pode resultar da combinação de vários fatores, sendo os mais comuns uma tendência para algumas crianças terem poliúria noturna, ou seja, urinarem mais durante a noite. No entanto, o mais importante é, sem dúvida, o facto de haver crianças com sono excessivamente profundo que não acordam quando têm a sensação de bexiga cheia.

Outros fatores possíveis

  • Aumento da contractilidade no músculo da parede da bexiga;
  • Menor capacidade da bexiga;
  • Treino inadequado dos esfíncteres das crianças pequenas;
  • Obstipação;
  • Higiene inadequada;
  • Infecção urinária;
  • Certas parasitasses;
  • Síndrome de apneia obstrutiva do sono com roncopatia.

Outras causas orgânicas importantes

  • Malformações urológicas;
  • Doenças neurológicas com lesão medular;
  • Diabetes mellitus;
  • Diabetes insípida;
  • Doença renal crónica.

Associação a outras doenças

A enurese secundária é muito comum?

A enurese é primária se nunca houve período de continência durante pelo menos 6 meses e secundária se ocorreu este período de continência. A enurese secundária representa cerca de 25% de todos os casos de enurese.

Aconselha a toma de medicamentos e uso de alarmes?

Estas estratégias têm resultados variáveis e devem ser conversadas apenas na consulta da especialidade. A desmopressina [um análogo sintético da vasopressina que atua na diminuição do débito urinário através da retenção de água] tem uma eficácia em  50 a 80% dos casos e o alarme tem uma eficácia em 40 a 80% dos casos.

A partir dos 7 anos, o alarme é o tratamento de primeira escolha da enurese pois é o mais eficaz. No entanto, para ambos, as recaídas podem ser frequentes após suspensão.

Quais os erros que os pais devem evitar se o filho tiver enurese?

  • Punir a crianças quando esta faz xixi na cama;
  • Ingerir excesso de líquidos depois das 18h;
  • Colocar fraldas na criança (no máximo, devem colocar resguardos do colchão).
  • Acordar a criança a meio da noite porque tal perturba mais o sono, pouco ajudando na maior parte das situações;
  • As crianças têm sempre muito mais que fazer do que ir urinar e não querem interromper as brincadeiras...  Neste ponto os educadores podem ajudar a lembrar-lhes que podem estar com vontade de fazer xixi.

6 estratégias que os pais devem adotar para lidar com a enurese

1. Modificar os hábitos urinários

A criança deve urinar pelo menos 5 a 6 vezes por dia. Pode ajudar ser após as refeições ou com recurso a um pequeno alarme de pulso. Isto vai ajudar a manter a bexiga menos distendida e reduzir resíduos de urina que persistam e que podem contribuir para a enurese;

2. Usar um calendário para premiar as “noites secas”

Isto ajuda a criança a sentir-se mais confiante quando há mais noites secas – que podem ser premiadas – além de permitir analisar a resposta às intervenções medicamentosas e não medicamentosas.

3. Treinar os esfíncteres vesicais

Em cada micção diurna tentar reter a urina e não responder à primeira sensação de bexiga cheia para fortalecer a musculatura pélvica. Depois, urinar completamente e fazer um pequeno esforço final para eliminar qualquer resíduo.

4. Aumentar a ingestão hídrica durante o dia e reduzir à noite

Três horas antes de deitar deve haver uma redução (não forçada) dos líquidos (por exemplo, 40% de manhã, 40% à tarde, 20% à noite).

5. Evitar a obstipação

Isso vai reduzir o resíduo vesical pós-miccional.

6. Modificar a dieta

A partir do meio da tarde é desaconselhável a ingestão de cafeína, chocolate, sumo de laranja, derivados de tomate, comidas picantes e bebidas com gás.

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