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Cancro colorretal: a importância do rastreio

Além de permitir uma deteção precoce da patologia oncológica, o rastreio tem a capacidade de diminuir a incidência deste tipo de cancro. Perceba porquê. 

O cancro colorretal é uma neoplasia, que se traduz no crescimento descontrolado das células do cólon (parte do intestino grosso) ou do reto (última seção do intestino grosso, que liga o cólon ao ânus). Começa com o surgimento de uma lesão precursora, que antecede o aparecimento da patologia oncológica. 

“Essas lesões precursoras aparecem sob a forma de pólipos, pequenas saliências na parede do interior do intestino”, explica João Pereira da Silva, especialista em Gastrenterologia, no Centro de Endoscopia Avançada do Hospital Lusíadas Lisboa

O rastreio é fundamental na prevenção desta patologia oncológica, cuja prevalência tem vindo a aumentar em Portugal — incluindo em idades mais jovens. É possível fazer uma deteção precoce deste cancro, estando disponíveis exames que, além de um diagnóstico rigoroso, permitem remover os tais pólipos ou lesões que mais tarde poderiam originar o tumor maligno. 

Adiar este cuidado de saúde pode ser prejudicial. “A partir de certa altura, quando atingem um determinado tamanho e acumulam determinadas alterações genéticas, as células destes pólipos passam a ganhar a capacidade de invadir as estruturas adjacentes e, eventualmente, espalhar-se por outras partes do corpo. Quando isso acontece, elas tornam-se num cancro.”

Principais sinais de alerta  

De acordo com João Pereira da Silva, o cancro colorretal é identificado em dois contextos distintos: “A forma que desejamos que seja a mais corrente é a deteção numa fase precoce, em que a patologia é ainda assintomática”, diz.  “Isto acontece, sobretudo, em pessoas que são submetidas a exames de rastreio e em que a patologia é apanhada numa fase muito inicial.”

Depois, há o cenário inverso: “Infelizmente, muitas vezes, o diagnóstico faz-se numa fase em que já há sintomas.”

Entre os principais sintomas para o cancro colorretal estão o aparecimento de sangue nas fezes e a anemia por falta de ferro que, sobretudo quando se trata do diagnóstico no sexo masculino, é altamente indicativo de que estamos perante a manifestação desta patologia oncológica. 

“Uma das únicas exceções para uma anemia por falta de ferro acontece com mulheres jovens e é provocada por perdas menstruais significativas. Mas, quando não temos estas explicações óbvias, é crucial que o despiste do cancro colorretal seja feito.”

Além disso, há outras queixas menos óbvias que podem ser um sinal de cancro colorretal: dores abdominais, alterações no funcionamento dos intestinos, como o agravamento da obstipação. 

“São sintomas muito inespecíficos e difíceis de atribuir a uma doença concreta, pelo que a sua avaliação deverá ser feita de forma individualizada pelo médico assistente”, explica. "Infelizmente, ainda há uma percentagem muito significativa destas patologias que cresce até ao ponto de poder desencadear uma oclusão intestinal, em que o intestino deixa de funcionar adequadamente, com um quadro de dor abdominal intensa e aguda, que motivam uma ida ao serviço de urgência.”

 

Quais são os grupos de risco?

  • Um dos fatores de risco principais, começa por destacar João Pereira da Silva, é a idade. “É uma patologia oncológica que, tendencialmente, não surge nos jovens. Por isso, a idade é um dos principais fatores de risco”, diz, indicando que é na segunda metade da vida, a partir dos 45 anos, que tende a manifestar-se mais.
     
  • Outro fator de risco muito relevante é a história familiar: “A presença do cancro colorretal num familiar de primeiro grau aumenta em cerca de 50% o risco de a pessoa vir a ter esta patologia”, explica. “Se esse familiar tiver sido diagnosticado em idade jovem ou se houver dois familiares em primeiro grau — um pai ou um irmão, por exemplo — o risco aumenta cerca de duas ou três vezes face a uma pessoa sem história familiar.”
     
  • O cancro do colorretal é também uma doença que tem maior prevalência no sexo masculino. Mas isto não significa que apenas os homens devam fazer o rastreio: “As recomendações são iguais para ambos os sexos. A percentagem de casos a menos no sexo feminino não é significativa o suficiente para retirar as mulheres dos programas de rastreio. Ambos os sexos são afetados de uma forma que é só ligeiramente diferente.” 
     
  • Além disso, “a obesidade e alterações ambientais de risco, como o sedentarismo, falta de exercício, consumo de carnes vermelhas em excesso”, constituem também fatores de risco.

Sobre os fatores protetores, João Pereira da Silva indica o exercício físico e a inclusão de fibra, sobretudo vegetal, na dieta.

A importância do rastreio

“Em Portugal, o cancro colorretal é a segunda maior causa de morte por patologia oncológica, atrás apenas do cancro do pulmão”, realça o especialista. “Por razões que ainda estão a ser investigadas, e que não estão totalmente esclarecidas, parece haver cada vez mais diagnósticos de cancro em idades jovens — entre os 40 e os 50 — que não estão a ser diagnosticados precocemente.”

Até recentemente, o rastreio era preconizado a partir dos 50 anos em homens e mulheres sem fatores de risco elevados, nomeadamente, sem história familiar desta patologia oncológica. Mas, devido ao aumento dos casos, gradualmente, as recomendações começam a mudar.

“Nos últimos dez anos, devido ao aumento de diagnósticos em idades mais jovens, as sociedades internacionais têm mudado a sua posição, recomendando que, na ausência de sintomas ou de história familiar pesada, o rastreio seja iniciado a partir dos 45 anos”, explica o especialista. 

Mas na faixa etária dos 30 também se tem vindo a verificar um aumento.  “Apesar de ser um grupo relativamente pequeno dentro do grupo total, a incidência está a aumentar. É um grupo que não beneficia do efeito protetor do rastreio, mais concretamente da colonoscopia, em que a deteção dos pólipos leva à sua remoção, agindo de forma preventiva.”

As causas para este crescimento ainda são desconhecidas: “Há suspeitas de que a patologia possa surgir por alterações na dieta, nomeadamente devido à introdução de determinados compostos químicos na dieta ocidental moderna. Mas é ainda uma área de investigação muito ativa, em que ainda não há respostas conclusivas.”

O rastreio a partir dos 45 anos, tanto para homens, como para mulheres, é determinante para a prevenção da patologia: “Sabemos hoje em dia que a instituição de um programa de rastreio deteta não só uma quantidade superior de cancros numa fase precoce, como diminui a incidência de cancros. A possibilidade de removermos as lesões precursoras durante o exame faz com que o cancro nunca chegue a aparecer”, sublinha João Pereira da Silva. 

Como é feito o rastreio

O programa de rastreio tem várias modalidades possíveis. “Há a pesquisa de sangue oculto nas fezes, em que se recolhem periodicamente amostras de fezes que são analisadas para a presença de restos microscópicos de sangue”, indica João Pereira da Silva.

No que se refere ao rigor do diagnóstico na pesquisa de sangue oculto nas fezes, há dois fatores importantes a destacar. Primeiro, pela sensibilidade do exame, nem sempre um resultado negativo permite excluir a presença de cancro: “Normalmente, a sensibilidade não será superior a 75%. O que quer dizer que, em quatro tumores, um deles não será detetado por uma pesquisa de sangue oculto nas fezes”, indica João Pereira da Silva. 

Depois, devido à existência de outras patologias não cancerígenas do foro digestivo, nem sempre um resultado positivo é sinónimo de doença oncológica.

“Muitas vezes, as pessoas têm um exame positivo porque têm outra patologia do intestino, como a doença hemorroidária ou devido a uma úlcera no estômago”, explica. 

Um resultado positivo neste exame vai motivar a realização de um procedimento endoscópico. Mais concretamente, de uma colonoscopia, que é outra das modalidades existentes (mais rigorosa e eficaz) para o diagnóstico de doenças oncológicas do trato digestivo. 

 “Durante a colonoscopia, e depois de se fazer a limpeza do intestino, é introduzido um tubo flexível de exame no interior do intestino grosso para se detetar a presença desta patologia”, explica o especialista.

É um método com muitas vantagens: “Uma delas é o facto de ser extremamente sensível na deteção dos tumores”, começa por indicar.

Além disso, outro enorme benefício prende-se com a possibilidade de remoção imediata dos pólipos e lesões, no decorrer do próprio exame. “Ao removermos estes tumores interrompemos a sua progressão antes de se transformarem em cancro”.

Tratamento

Se forem detetadas lesões suspeitas de serem já tumores do intestino, o primeiro passo é recolher uma biópsia, ainda no decorrer do exame endoscópico.  “Depois, marcamos o local no intestino onde se situa a lesão para ajudar o cirurgião que, posteriormente, irá operar”, explica. “Depois da colonoscopia, agenda-se um exame de imagem, regra geral, uma TAC ou uma ressonância, para avaliar se a patologia ainda está no intestino ou se já está noutros órgãos.”

Esta informação é fundamental: “Confirmando-se que a patologia está localizada apenas no órgão de origem, então o passo seguinte é a cirurgia para remover a totalidade do tumor, ou seja, a parte do intestino grosso em que se encontra — junto com os gânglios linfáticos adjacentes ao tumor,  onde muitas vezes as tais células se espalham primeiro.” Se forem detetadas células cancerígenas nos gânglios, há critério para a realização de quimioterapia após a cirurgia.

No caso de as células serem detetadas na zona do reto, os procedimentos são mais complexos: “Tem que ver com a proximidade do reto às estruturas da cavidade pélvica, que obriga a uma aferição muito precisa do tamanho e da localização do tumor”, explica João Pereira da Silva. “Regra geral, essa aferição faz-se com a realização de um exame, uma ressonância magnética pélvica dirigida à avaliação dos tumores do reto, fornecendo uma informação relacionada com o tamanho e a penetração da doença dentro da parede do reto e a proximidade às estruturas vizinhas.”

Essa informação é depois utilizada para saber se é possível proceder-se de imediato à operação. “Em caso de tumores do reto muito grandes que estejam a invadir estruturas da cavidade pélvica, pode ser necessário primeiro a realização de tratamentos com radioterapia associada a quimioterapia para reduzir o tamanho do tumor antes da operação, de forma a permitir que a cirurgia seja, de facto, curativa, eliminando o tumor na totalidade.”

Depois desta cirurgia, discute-se se há necessidade de fazer outros tratamentos, conhecidos como adjuvantes, para complementar e reduzir ao mínimo o risco de a patologia voltar, quer no sítio onde foi operada, quer noutros órgãos.  “Normalmente, coloca-se aqui a hipótese da quimioterapia adjuvante.”

Quando a doença já está disseminada, o potencial de cura diminui muito. Mas há exceções: “Existem casos em que, se a doença estiver espalhada apenas para um órgão, em pequena quantidade, podemos fazer uma cirurgia para retirar um pouco desse órgão, como o fígado ou pulmão.”
 

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Colaboração

Dr. João Pereira da Silva

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