Lusiadas.pt | Blog | Doenças | Doenças Crónicas | Especial: hepatites virais
5 min

Especial: hepatites virais

Quando se fala em hepatite trata-se sempre de uma inflamação no fígado. Inês Vaz Pinto, especialista em Medicina Interna do Hospital de Cascais, ajuda a clarificar todas as dúvidas.

Hepatite ou hepatites?

A palavra, usada no singular, designa toda e qualquer inflamação do fígado. Fala-se em hepatites, no plural, porque essa mesma inflamação pode dever-se a diferentes causas. A toma de medicação, consumo de álcool ou de drogas, ou a existência de algumas doenças autoimunes, metabólicas e genéticas podem resultar em hepatite. E mesmo quando se trata de uma inflamação viral, o que corresponde à maioria dos casos, esta pode dever-se a diferentes tipos de vírus.

Hepatites virais

A ciência identificou 5 tipos de vírus causadores de hepatite no ser humano e usou as 5 primeiras letras do alfabeto para distingui-los. “As hepatites virais mais comuns em Portugal são as causadas pelo vírus A (VHA), o vírus B (VHB) e o vírus C (VHC). A hepatite por vírus D (VHD) e E (VHE) são mais raras, sendo que a hepatite E tem um predomínio significativo nos países do sudeste asiático”, explica Inês Vaz Pinto, especialista em Medicina Interna e Coordenadora da Unidade Funcional VIH/SIDA do Hospital de Cascais.

Sinais de alerta 

As hepatites, por vezes, são doenças “silenciosas” que, mesmo na fase aguda, não provocam qualquer sintoma. Quando a infeção se faz notar, os sintomas podem no início ser inespecíficos e de mal-estar geral, semelhantes a uma gripe. Mas geralmente evoluem para:

  • Icterícia (coloração amarelada da pele e das escleróticas, a parte branca dos olhos);
  • Colúria (coloração escura da urina);
  • Cansaço;
  • Falta de apetite;
  • Náuseas e vómitos.

“Quanto mais tarde na vida se adquire uma infeção aguda por um vírus, maior a probabilidade de esta ser sintomática e mais duradoura no tempo”, alerta a especialista.

Diagnóstico

Quando as análises de rotina ao fígado detetam alguma alteração dos parâmetros hepáticos, o passo seguinte é verificar, através de testes realizados em laboratório, se existem anticorpos presentes para os vírus das hepatites. “A análise desses anticorpos permite distinguir entre infeções agudas ou recentes e infeções crónicas ou já resolvidas no passado”, explica Inês Vaz Pinto.

As hepatites virais agudas, além de poderem não apresentar sintomas, muitas vezes resolvem-se espontaneamente (sem qualquer tratamento específico), por isso, “muito frequentemente, as pessoas em idade adulta descobrem que já tiveram hepatite A, B ou C apenas muito mais tarde e acidentalmente.

Prevenção 

Os vírus das hepatites A, B, C, D e E têm diferentes formas de transmissão porque são vírus de constituição diferente e, consequentemente, com ciclos de vida diferentes:

1. Hepatites A e E

Os vírus VHA e VHE são semelhantes e comportam-se de maneira semelhante. “A sua forma de transmissão diz-se ‘fecal-oral’, ou seja, através da ingestão de água e alimentos contaminados por pessoas infetadas (que não tomaram precauções de higiene) ou diretamente de uma pessoa infetada para outra.

É por esta razão que a infeção é muito mais comum nas crianças, pois no convívio entre elas existe muita partilha de brinquedos e outros objetos que muitas vezes passaram pela boca de uns e outros”.

Prevenção das Hepatites A e E

Estas medidas são especialmente importantes para quem viajar para destinos em que os cuidados de saúde são mais precários:

  • Limpeza dos alimentos

Lave bem os alimentos antes de os ingerir;

  • Escolha bem os alimentos

Prefira alimentos embalados ou cozinhados a altas temperaturas (o vapor não neutraliza o vírus);

  • Atenção à água

Beba água engarrafada ou previamente fervida a 98º (atenção aos cubos de gelo nas bebidas!);

  • Cuidados de higiene

Redobre os cuidados de higiene quando for à casa de banho, evitando o contacto direto com a sanita e lavando sempre bem as mãos;

  • Vacinação

Pondere vacinar-se previamente contra a Hepatite A (procure aconselhamento médico).

2. Hepatites B, C e D

A transmissão do VHB, VHC e VHD faz-se predominantemente por via sanguínea – há algumas décadas através de transfusões de sangue (quando ainda não se fazia o rastreio) e, nos anos mais recentes, através da partilha de material infetado por utilizadores de drogas endovenosas.

A transmissão sexual dos vírus das hepatites ocorre mais frequentemente com o VHB e com VHD, sendo este último um “caso especial” — o VHD sozinho não consegue infetar a pessoa, é como se fosse “um parasita” da infeção por VHB (necessita da presença de um antigénio do VHB).

“No entanto, nos últimos anos, e em vários países da Europa, tem-se verificado surtos de infeção aguda por VHC, por transmissão sexual, no contexto das relações homossexuais”, refere Inês Vaz Pinto.

Prevenção das Hepatites B, C e D

  • Cuidados na partilha de objetos

Evite partilhar objetos pessoais, tais como escovas de dentes, brincos e corta unhas e nunca partilhe agulhas ou seringas;

  • Limpeza do objeto partilhado

Assegure a esterilização prévia de qualquer objeto cortante partilhado, seja a navalha do barbeiro ou a agulha usada para fazer um piercing ou tatuagem;

  • Use preservativo

Use preservativo, particularmente se mantém múltiplos parceiros sexuais. Este é o único método eficaz para evitar a transmissão do VHB, VHC e VHE, mas também de doenças sexualmente transmissíveis como o VIH, sífilis, gonorreia, entre outras doenças sexualmente transmissíveis (DST).

  • Vacinação

Pondere tomar a vacina contra a Hepatite B se é profissional de saúde ou, por outro motivo, está mais exposto. A vacina faz parte do Programa Nacional de Vacinação (PNV) há já alguns anos e as crianças portuguesas estão imunizadas – no entanto, os adultos considerados “de risco” podem e devem recorrer à vacinação.

3. Hepatites agudas/ hepatites crónicas

Quando, decorridos 6 meses, o vírus ainda é detetável no sangue e não se verifica a presença de anticorpos protetores, a hepatite passa a ser considerada uma doença crónica. “Pode dizer-se que as hepatites por VHA e VHE são exclusivamente agudas. Salvo uma ou outra exceção, estas infeções não evoluem para hepatites crónicas”, explica a especialista. 

Nas hepatites VHB e VHD, também 70 a 80% dos doentes infetados vêem a sua infeção resolver-se espontaneamente. Já com o VHC passa-se o inverso: apenas cerca de 25 a 30% dos doentes infetados consegue que a infeção se resolva espontaneamente e, por isso, a grande maioria dos doentes evolui para uma situação de hepatite crónica.

Tratamento da hepatite viral aguda

A hepatite viral aguda resolve-se em muitos casos apenas com terapêutica sintomática. “É importante lembrar que numa hepatite viral aguda há um agente, um vírus, que está a ‘agredir’ o fígado, a causar inflamação. E, por esse motivo, todo e qualquer outro potencial agressor do fígado (como as bebidas alcoólicas ou determinados medicamentos) não é bem-vindo”, acrescenta Inês Vaz Pinto. Por isso é necessário:

  • Repouso;
  • Descanso;
  • Dieta restritiva (se tem náuseas e/ou vómitos);

Tratamento da hepatite crónica por VHC

Em algumas situações agudas pode estar indicado o tratamento da infeção aguda por VHC. “O tratamento da hepatite crónica por VHC sofreu uma autêntica revolução nos últimos três a quatro anos.

De um tratamento longo, com terapêutica injetável, efeitos secundários muito significativos e taxas de sucesso medíocres, passámos a ter à disposição tratamentos exclusivamente orais (ditos livres de interferão), que têm poucos ou quase nulos efeitos secundários e apresentam taxas de cura da infeção entre os 95 e os 100%”, explica Inês Vaz Pinto. O tratamento recomendado pode ser de 8, 12 ou 24 semanas.

A duração depende de 2 factores:

  • Do tipo de vírus (o chamado genótipo do VHC, que pode ir de 1 a 6);
  • O estádio de fibrose do fígado (habitualmente doentes que já apresentem cirrose fazem tratamentos mais longos).

Nas hepatites virais, apenas as causadas por VHB e VHC evoluem para cirrose. “Uma vez tratadas (e agora curadas, no caso do VHC), a cirrose permanece, não regride e, por esse motivo, é obrigatória a vigilância do cancro do fígado (pelo menos uma vez por ano)”, acrescenta a especialista.

Este artigo foi útil?

We appreciate the feedback.

Please include your email if you want us to follow up with you.

Especialidades em foco neste artigo

PT