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Como ajudar os adolescentes durante o período de isolamento?

Os conselhos de Hugo Braga Tavares, pediatra e coordenador do Centro Multidisciplinar do Adolescente do Hospital Lusíadas Porto, para as famílias gerirem da melhor forma possível um momento tão singular.

O período que estamos a viver, caracterizado por uma pandemia e uma vivência em isolamento, tem um impacto específico nos adolescentes?

Penso que o atual período terá uma consequência em todos nós, independentemente da idade. Só teremos ideia da verdadeira dimensão do impacto mais tarde e dependendo do tempo que durar toda a situação até regressarmos à “normalidade”. Por incrível que pareça, para algumas crianças poderá até ter um impacto positivo… Quantas se sentirão satisfeitas de poder ter os pais em casa 24/24 horas?! Da mesma forma, para alguns adolescentes esta pausa escolar prolongada (mesmo tendo que cumprir as ditas “reduzidas” tarefas escolares) pode ser vista como uma oportunidade para dedicar mais tempo às atividades que lhes dão mais prazer, tais como aquelas mais “lúdicas” que são próprias das férias.

Curiosamente, dos contactos que vou mantendo no âmbito das consultas à distância, muitos dos adolescentes com problemas de ansiedade de desempenho, vítimas de bullying ou com recusa escolar vão estando mais calmos em casa. Teremos, nestes casos, provavelmente, outras consequências no futuro, mas, nesta fase estarão “menos mal” do que quando estavam na escola...

Tal não será propriamente o caso da maioria dos adolescentes…. Teremos muitos jovens que sentirão de forma pesada as limitações na sua mobilidade, saídas, convívios sociais, gestão dos seus relacionamentos mais íntimos. Algo que tenderá a agravar-se com o prolongar da situação. E esta limitação poderá desencadear quadros de ansiedade, sobretudo quando e se sentirem que não há uma “luz ao fundo do túnel”. É fundamental, portanto, combater o isolamento e contrariar os cenários mais pessimistas com uma boa dose de esperança!

Na verdade, a ideia de isolamento social total não existe para os adolescentes pelas múltiplas opções tecnológicas que já caracterizavam as suas vidas e que têm sido a sua ponte para o “exterior”.

Os jovens sentem de forma diferente a forma como o tempo corre. Muitos referem o quanto custa o tempo a passar a cada dia… E o impacto do tempo de confinamento será proporcional ao tempo e experiência de vida passada.

Quanto à gravidade da situação clínica em relação à COVID-19, tem sido veiculada a ideia de menor gravidade do quadro nos jovens, o que pode diminuir a capacidade de perceção dos riscos e da necessidade do cumprimento das medidas de isolamento. Tivemos imagens disso nos primeiros tempos do confinamento. A adolescência é uma fase em que o egocentrismo pode ficar exacerbado e isso pode colidir com o dever de valorizar o “bem comum” ou as necessidades de um todo.

Mas muitos jovens conseguem perceber (ou já sentiram mesmo) o potencial impacto nas suas vidas com familiares ou conhecidos que foram infetados ou faleceram com a doença. E convém não esquecer, também, todos aqueles adolescentes que tiveram a doença e o sofrimento físico e psicológico sentido, sobretudo em relação à incerteza da evolução do quadro clínico. E isso tem e terá um impacto muito significativo nas suas vidas.

A adolescência é uma fase em que muitos jovens tomam pela primeira vez consciência dos limites da vida e, como tal, uma permanente ameaça à sua vida (ou dos seus mais próximos) pode ter consequências negativas.

Tudo isto poderá ser ultrapassado pelos adolescentes que, reconhecidamente, têm uma plasticidade e capacidade fantástica de se adaptar à adversidade. Mas não podemos esquecer todos os que já sofrem de alguma doença mental ou desequilíbrio pessoal e/ou familiar para os quais o confinamento poderá ser um risco muito grande para o agravamento da doença.

 

Que hábitos e regras devem os pais adotar nesta altura de forma a promover a melhor convivência com os filhos adolescentes?

Acho que na maioria das famílias nunca houve tanta oportunidade para as pessoas estarem juntas como nesta fase. Mas mais tempo não significa necessariamente melhor tempo

E reparem que muitos dos conflitos dos adolescentes com as suas famílias decorrem da “convivência”, sobretudo num mesmo espaço… Ou seja, mais tempo pode significar mais conflitos… Acresce a (natural) maior saturação de todas as pessoas pelo confinamento em si e outros problemas (financeiros, por exemplo) decorrentes do mesmo…

Sem deixar de respeitar o espaço físico e emocional de cada um (mais difícil de ajustar quando temos menos “m2 de mobilidade per capita”!) esta é uma oportunidade de os pais conhecerem melhor os filhos e vice-versa…

As regras sugeridas passam por:

a) Manter o mais possível as rotinas diárias habituais (higiene, vestir, horas de refeições, horas de deitar e acordar);

b) Estabelecer tarefas de “gestão familiar” que incluam todos os que partilham “o mesmo barco” (obviamente adaptadas às capacidades de cada um);

Os hábitos a implementar passam por criar novas rotinas que permitam momentos em família e momentos dos adolescentes a sós (se assim o quiserem).

Sem deixar de abordar o tema do medo da doença ou da morte, que pode afetar qualquer um, os pais devem aproveitar as oportunidades em conjunto para falarem de outros temas que não a COVID-19 (evitar estar sempre a ver e a discutir as notícias relacionadas) e falar dos planos para o futuro!

Uma atividade de grupo que pode ser interessante e tornar-se num hábito saudável passa pela prática de atividade física em grupo!

 

Como podem os adolescentes tornar-se parte da solução em vez de agravarem os problemas/dificuldades próprios desta fase que vivemos?

Sou suspeito, mas para mim os adolescentes são sempre mais parte da solução do que qualquer problema… A natural espontaneidade, humor e “boa onda” dos adolescentes e a sua esperança num futuro melhor são contagiantes, mesmo quando nos colamos aos números que diariamente nos entram pelas televisões/tablets e telefones adentro.

 

Que atividades podem ajudar a preencher os dias dos adolescentes nesta altura para que o tempo não custe tanto a passar?

Para além da fundamental atribuição de tempo para estudos e, como atrás referido, para as tarefas domésticas, devemos promover a prática de alguma atividade física. São muitas as oportunidades online que ensinam exercícios simples.

Não precisamos de sugerir o recurso a televisão/programas de televisão em streaming, tablets, Youtube, redes sociais... Será sem dúvida o maior aliado dos jovens para passar o tempo. Mas podemos também sugerir ler, jogos de tabuleiro...

 

Até que ponto é que esta altura pode ser encarada com uma oportunidade para uma perspetiva de vida diferente? Como pode esta visão ser promovida pelos pais junto dos filhos adolescentes?

Como já foi referido, este será um momento que terá um impacto significativo na vida de todos. Também na forma como valorizamos as pequenas coisas – sair para estar com os amigos, passear junto à praia, tomar um café numa esplanada ou trabalhar sem ter que usar uma máscara ou fato “espacial”...

Muitos jovens estão a sentir que a sua vida está, durante a pandemia, muito limitada, sobretudo na socialização e possibilidade de saídas (para a escola e com os amigos). Daí decorrerá uma necessária valorização do privilégio de circular livremente. Algumas outras marcas ficarão (espero!) na forma como lidamos com a doença e como valorizamos e promovemos a saúde. Temo que após esta crise, outra se sobreponha, mas que seja “apenas” uma crise económica que não comprometa os valores de vivência em sociedade e o nosso futuro como Humanidade.

 

O que podem os pais aprender com os filhos e vice-versa nesta altura em que são forçados a conviver mais uns com os outros?

Penso que já tudo foi dito… Todos vivemos este momento de forma única. Cada um sente e valoriza as limitações de forma diferente. Cada um usa os seus mecanismos de adaptação para os ultrapassar. Os pais deverão ser exemplo de força, responsabilidade e cidadania. Os adolescentes poderão contribuir com a sua generosidade, otimismo, resiliência e conhecimentos tecnológicos. Em conjunto, as famílias podem aprender a conhecer-se e a funcionar melhor. O maior ganho é podermos partilhar tudo isto e crescer como pessoas e seres em relação. Esse seria um excelente legado POSITIVO da COVID-19.

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Especialidades em foco neste artigo

Autoria

Dr. Hugo Braga Tavares

Pediatria
Hospital Lusíadas Porto
PT