Lusiadas.pt | Blog | Crianças | Idade escolar | Os brinquedos influenciam o futuro das crianças?
4 min

Os brinquedos influenciam o futuro das crianças?

“Bebés” cor-de-rosa e construções azuis. Podem os brinquedos moldar a forma como as crianças olham o mundo?
Sandra Borges, pedopsiquiatra no Hospital Lusíadas Porto, considera que sim e defende a liberdade de escolha, sem preconceitos. Mas deixa um alerta aos pais: mais importante do que um brinquedo, é o uso que se faz dele.

Por Helena Viegas

A empresa McDonald's Portugal decidiu recentemente passar a oferecer brinquedos unissexo nos menus Happy Meal e as caixas de comentários à notícia encheram-se de opiniões de pais a favor e contra a decisão. O que para uns era uma cedência ridícula ao “politicamente correto” e a negação das preferências dos próprios miúdos entre Transformers e My Little Poneys, para outros não passava do assumir de uma evidência: “Os brinquedos não têm sexo.” A discussão não é nova e divide a própria comunidade científica. “As questões relacionadas com as diferenças de género e entre os cérebros masculino e feminino são ainda muito polémicas. Alguns estudos referem interações neuronais entre hemisférios específicas do cérebro feminino, outros sugerem que apenas existem diferentes tipos de cérebros independentemente do género”, alerta Sandra Borges, pedopsiquiatra no Hospital Lusíadas Porto. É consensual que certos brinquedos permitem desenvolver vários tipos de raciocínio (ver caixa) e que meninos e meninas revelam tendencialmente, embora não em todos os casos, preferências diferentes. Só que os problemas surgem quando se procura explicar o que é determinado por questões de género ou qual o peso de uma educação diferenciada – e a dificuldade aumenta quando se sabe o poder que o marketing exerce nos mais novos. Confuso? Talvez. Mas para os pais, a opção sensata revela-se afinal bem simples: “O mais importante é a criança ter acesso a estímulos variados e poder escolher com liberdade se quer brincar com a bola, o bebé ou o carrinho”, garante a pedopsiquiatra.

 

Cor-de-rosa e azul

No Reino Unido, pais e especialistas têm pressionado os fabricantes a deixarem de lado a categorização por sexo através da campanha “Deixem os brinquedos ser só brinquedos” (14 empresas já se comprometeram). Lembram que basta recuar algumas décadas para perceber que, mesmo nos Estados Unidos, a segregação entre brinquedos “cor-de-rosa” e “azuis” é uma estratégia de marketing recente. “Nos anos 70, a publicidade mostrava crianças de ambos os sexos a brincarem com uma variedade de brinquedos coloridos”, explica Elisabeth Sweet, citada pelo jornal britânico The Guardian. As imagens das campanhas publicitárias da Lego mostram essa evolução. Foi nos anos 80 e 90, quando o feminismo deixou de estar na moda, que a divisão se acentuou. E, embora agora se assista ao movimento inverso – veja-se a discussão que suscitou a petição lançada por McKenna Pope, uma jovem 13 anos, para que a Hasbro passasse a usar cores neutras na promoção dos seus brinquedos – os mais críticos consideram não ser ainda suficiente. “Ao mesmo tempo que aprendem que ser menino ou menina é importante, as crianças assumem que características culturalmente específicas, como querer costurar ou ser um bombeiro, são inatas e biologicamente impulsionadas. E uma vez instalada, essa visão estereotipada é difícil de alterar”, alerta a psicóloga Christa Brown, no blogue da revista Psychology Today. É por isso positivo que as Barbies assumam a profissão de cientista e a Lego lance personagens femininas ligadas à astronomia mas, segundo estudos recentes, a complexidade dos brinquedos masculinos continua a ser maior.

 

Para que serve um brinquedo?

A ciência comprova que os brinquedos estimulam o desenvolvimento. Quer no que toca aos puzzles e construções, mais direcionados para a motricidade fina e o raciocínio, quer em relação aos brinquedos de “faz-de-conta”, que fomentam a aprendizagem por imitação e o treino das competências sociais. Mas para a pedopsiquiatra Sandra Borges, avessa a condicionalismos de marketing e consciente do papel didático dos brinquedos, a questão não deve ser sobrevalorizada. Muitas vezes, “menos é mais”, e é importante que os pais tenham noção de que com os objetos do dia a dia e até “num passeio no parque, a brincar com pedrinhas e folhinhas, se podem trabalhar as mesmas competências”, afirma. Mais importante do que o brinquedo em si, é o uso que a criança faz ou é desafiada a fazer dele. “Com um puzzle também se podem trabalhar a persistência, a resistência à frustração... E, se calhar, com caixotes vazios ou uma almofada a fingir que é um bebé, a criança, além das competências sociais, trabalha muito mais a fantasia”, lembra. Para a pedopsiquiatra, a decisão da McDonald's “faz todo o sentido”, e é positivo que os pais exerçam um papel regulador, assegurando que no quarto do filho existe uma cozinha ou há dinossauros na estante cor-de-rosa da filha. Mas a escolha deve ser permitida, sem qualquer pressão psicológica, mesmo que não corresponda ao padrão socialmente considerado. Além disso, na opinião da especialista, os brinquedos também podem ser utilizados pelos pais para derrubar estereótipos, mas a coerência é importante. Não adianta ter Barbies de todas as cores se o comportamento dos próprios pais e da sociedade denota uma postura racista – “as crianças são peritas a detetar incongruências”, alerta.

Pode ler este artigo na edição número 7 da Revista Lusíadas, aqui

Ler mais sobre

Criança

Este artigo foi útil?

We appreciate the feedback.

Please include your email if you want us to follow up with you.

PT