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Gonalgia: as várias causas para a dor no joelho

Colaboração
Termo técnico para a dor genérica do joelho, a gonalgia tem diferentes causas e, por isso, diferentes tipos de tratamento.

A gonalgia é o termo médico para a dor comum na articulação do joelho. Esta dor pode indicar diferentes problemas: desde uma situação aguda, como uma torção do joelho, até causas mais raras, como infeções ou tumores ósseos. Frequentemente, em pessoas mais velhas, a gonalgia sinaliza a artrose, uma patologia degenerativa do joelho.
 
“Esta dor limita a mobilidade do doente”, diz Hugo Constantino, ortopedista no Hospital Lusíadas Amadora, acrescentando que estamos perante um processo evolutivo em casos como a artrose. “Quanto mais andamos em cima do joelho, mais dói. Em função do impacto repetitivo do membro inferior no chão, o doente primeiro deixa de conseguir correr e mais tarde faz caminhadas cada vez mais curtas.”

A gonalgia pode estar relacionada com lesões desportivas ou com outros fatores, como a obesidade ou a diabetes, tendo a medicina várias respostas para as suas diferentes causas. No entanto, Hugo Constantino indica que há cuidados preventivos que ajudam a evitar estas dores.

As diferentes origens de uma dor

A articulação do joelho é essencial para o movimento dos membros inferiores. A perna é composta pelos ossos do fémur, da tíbia e da rótula, que, por sua vez, são almofadados pelas cartilagens articulares e pelo menisco, estes últimos essenciais para permitir o movimento sem haver contacto direto entre os ossos. Por fim, várias estruturas como ligamentos e tendões conectam ossos e músculos, mantendo a integridade da articulação.

Problemas nos ligamentos, na cartilagem e nos ossos desta articulação vão, mais cedo ou mais tarde, desencadear uma gonalgia. “A dor no joelho pode ter origem traumática ou pode ter origem numa patologia de base. [Neste caso], pode ser infeciosa, reumática, tumoral ou pode ainda ser uma patologia degenerativa”, enumera o ortopedista.

1. Origem traumática

As origens traumáticas estão muitas vezes associadas a atividades desportivas e incidem mais nos jovens. Há dois tipos de traumas, os traumas agudos, que acontecem num único momento, e os traumas repetitivos, que evidenciam um desgaste da articulação, denominados de lesões de sobrecarga.

Traumas agudos

Os traumas agudos surgem quando estamos perante “um traumatismo direto do joelho ou uma torção — num jogo de futebol em que o joelho roda sobre o corpo, ou no ski, em que o ski fica preso e o corpo roda sobre o joelho”, exemplifica o ortopedista. Neste caso, é frequente ocorrer uma rotura do ligamento cruzado anterior, associado muitas vezes à rotura do menisco. E surge dor e limitação imediata.

Lesão de sobrecarga

Já uma lesão de sobrecarga está associada a um esforço prolongado. Segundo Hugo Constantino, “um atleta que faça muita corrida, com mau calçado e piso duro” pode vir a sofrer deste problema. Esta sobrecarga vai gerar lesões no osso subcondral (a parte do osso em contacto com a cartilagem que reveste a articulação), provocando dor.

2. Origem patológica

A origem patológica é mais diversa. Pode ser degenerativa, reumática, infecciosa ou de causa tumoral.

Degenerativa

A doença degenerativa do joelho, a gonartrose, ocorre especialmente em pessoas mais velhas, estando na origem do desgaste da articulação, que normalmente afeta a cartilagem e o osso que reveste a articulação. Este processo pode ser primário, quando não há um motivo aparente, ou pode ser secundário, como no caso de uma sequela de uma fratura articular antiga dos ossos que compõem a articulação do joelho. 

“Um joelho pode ter sofrido uma lesão traumática desportiva, uma rotura do cruzado, uma rotura do menisco ou uma lesão do osso subcondral. Esse processo degenerativo do joelho vai-se desenvolvendo para o resto da vida. Passados 10, 15 ou 20 anos, vai evoluir para uma artrose do joelho”, explica o especialista.

Com o desgaste da articulação, vão surgindo calcificações da cartilagem, e osteófitos. Em situações em que a patologia está muito avançada, a cartilagem chega a desaparecer e começa a haver contacto direto entre os ossos. Com este desgaste, o osso acaba por enviar um sinal de dor cada vez maior.
    
Reumática

Está associada a doenças inflamatórias do tecido conjuntivo, que afetam a cartilagem articular.

“Quem tem doença reumatológica, como artrite reumatoide, vai ter problemas no joelho e poderá precisar de uma prótese numa fase precoce da vida”, revela Hugo Constantino.

Tumoral

A dor pode ter uma causa tumoral, embora “os tumores dos ossos sejam muito raros.”

Infeciosa

Neste caso, agentes patogénicos que causam a gonorreia ou a tuberculose podem também infetar a articulação do joelho.

“Temos de adequar o despiste à idade. Se for um jovem até aos 40 anos, sexualmente ativo, temos de despistar a gonorreia, que pode provocar uma infeção articular. No caso de um doente com mais idade, temos de despistar a tuberculose. Se for uma pessoa imunodeprimida, realizamos o despiste de outros agentes. Felizmente, é uma percentagem muito baixa”, assegura o especialista.

As consequências da dor

O efeito imediato da gonalgia é uma diminuição da mobilidade. O joelho é uma articulação de carga, ou seja, suporta o peso do corpo. No caso das artroses, por exemplo, a dor surge ao caminhar, por se exercer peso no joelho. Com o tempo, esta dor aumenta, limitando cada vez mais o indivíduo.

Por fim, “todas as estruturas articulares tentam bloquear o joelho para não ter dor”, explica o especialista. Assim, “muitas vezes, no processo muito evoluído de artroses, o doente já não consegue a extensão completa do joelho.”

No caso das lesões agudas, o processo é diferente: “Quando há uma rotura no menisco, há um processo inflamatório no joelho que, quando em sobrecarga (às vezes com o andar, mas é mais potenciado pelo correr), aumenta o processo inflamatório e provoca dor.” 

Diagnóstico da gonalgia

Na resposta médica para a gonalgia estão envolvidos ortopedistas, fisiatras e especialistas em Medicina Desportiva.

O diagnóstico inicia-se sempre com a história clínica do indivíduo. A partir daí, o médico recorre a diferentes exames de Imagiologia ou a análises, consoante a suspeita. 

As duas técnicas de Imagiologia mais importantes são a radiografia simples, que permite observar o estado das estruturas ósseas, e o exame por ressonância magnética, que faz a avaliação das estruturas não ósseas, como os tendões e as cartilagens. Artroses e rompimentos de estruturas são identificados usando estas duas técnicas. 

O sinal de uma infeção também surge na Imagiologia, mas o diagnóstico é complementado com outros exames. “Se estivermos perante uma suspeita de causa infeciosa, temos que picar o joelho e recolher líquido para identificar o agente. Nos exames imagiológicos, a ressonância é a que nos dá um sinal mais precoce”, diz Hugo Constantino. “Numa situação mais evoluída, mesmo que a causa seja infeciosa ou tumoral, há tradução na radiografia simples.”

Os vários tratamentos

O tratamento da gonalgia depende muito da causa da dor e da evolução do problema. Pode passar por um tratamento conservador, não cirúrgico, como em muitas lesões desportivas. Mas, muitas vezes, o paciente passa por um tratamento cirúrgico, que nos últimos 30 anos evoluiu muito, com diferentes técnicas aplicadas a diferentes problemas. 

“A evolução tecnológica permitiu ter acesso à articulação do joelho de uma forma cada vez menos invasiva. Pela artroscopia, a cirurgia dos furinhos, conseguem-se fazer coisas sem abrir o joelho, que eram impensáveis há 30 anos”, diz o especialista. “Já há muitos processos degenerativos que podem ser tratados de uma forma artroscópica.”

No entanto, há casos em que é necessário recorrer à cirurgia aberta do joelho, como, por exemplo, para colocar próteses. Quando a dor dos doentes é causada por uma infeção, o tratamento passa pelo uso de antibióticos.

Como evitar a gonalgia

Ao longo da vida, é natural que exista um certo desgaste da articulação do joelho. No entanto, há formas de evitar a gonalgia (e outras dores articulares). Manter uma boa condição física é fundamental, explica Hugo Constantino. Os ossos que constituem o joelho têm um envelope muscular com muita importância no bem-estar da articulação: “Se tivermos um envelope muscular bem desenvolvido, os músculos aguentam muito do stresse que é transmitido aos joelhos. Os músculos conseguem evitar que esse stresse se traduza em lesões.” 

Por outro lado, “uma pessoa em má condição física, obesa e que vá fazer um jogo de futebol, na primeira torção em que o pé fica preso, pode sofrer uma rotura do menisco, romper o cruzado, entre outros. O mesmo acontece noutras atividades, como no ski”, avisa o especialista.

Além disso, há a questão do impacto físico em atividades como a corrida. Quando as pessoas correm em superfícies duras, como o cimento ou alcatrão, grande parte da vibração do impacto é transmitida aos joelhos, porque muito pouca é absorvida pelo chão. 

“Ao longo dos anos, isto vai se traduzindo na artrose do joelho – a doença da cartilagem. Por isso, ter uma boa condição física, ter um bom calçado e não ter excesso de peso são as condições fundamentais para evitar as lesões do joelho”, refere Hugo Constantino. 

O especialista sublinha também a importância do tipo de superfície onde se corre, indicando que um solo mais macio vai absorver parte do impacto das passadas: “Eu aconselho a todos os meus doentes que, sempre que possível, corram em terra batida ou em relva.”
 

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Dr. Hugo Constantino

Dr. Hugo Constantino

Hospital Lusíadas Amadora
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