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É perigoso fazer a depilação integral da zona íntima?

Não está documentada a relação direta entre a ausência de pelos púbicos e um maior risco de infeções sexualmente transmissíveis. Depilar ou não a zona íntima é uma opção da mulher.

Uma rápida pesquisa no Google é suficiente para deixar baralhada qualquer mulher que, por questões estéticas ou outras, decida optar por uma depilação integral da zona íntima. Há conselhos para todos os gostos e muitos alertas, pouco ou nada sustentados pela ciência, sobre os perigos da chamada “depilação brasileira”.

Entrevistámos Pedro Vieira Baptista, ginecologista e obstetra do Hospital Lusíadas Porto, e a opinião do médico foi taxativa. “Não há evidência científica que justifique fazer recomendações num sentido ou noutro. A depilação (ou a não depilação), ainda que seja uma opção ditada por modas e por maior ou menor pressão externa, é uma forma de liberdade e de expressão sexual, que não pode de forma alguma ser julgada!”

Os pelos púbicos têm alguma função?

Teoricamente, pode assumir-se que o pelo púbico possa ter algum papel na proteção dos grandes lábios, ao diminuir o atrito, manter os níveis de humidade cutânea e a temperatura – contudo, tal nunca foi demonstrado pela investigação e a sua ausência não parece ser causa de problemas.

Sabemos que, ao longo da nossa evolução, temos tido tendência a diminuir a pilosidade no geral. O argumento comum de que “se existe tem função e por tal não se deve tirar” dificilmente pode ser considerado válido: não se colocam as mesmas objeções a nenhuma outra área do corpo. Existe uma grande variação racial e ao longo da vida, relativamente às características da pilosidade genital (ausência de pelo antes da puberdade e rarefação na pós-menopausa) sem que tal se consiga associar a complicações.

A depilação integral favorece uma maior higiene da zona íntima da mulher?

Não. A depilação integral não é “mais higiénica” como muitas mulheres pensam. Contudo, se a opção transmite à mulher uma sensação de maior higiene e confiança, não havendo contraindicações, não há que colocar objeções.

Como se deve fazer a higiene íntima?

  • Devem ser evitadas as formulações sólidas (sabões e sabonetes), produtos perfumados, duches vaginais e lavagens demasiado frequentes. O uso de antisséticos ou antibacterianos não é aconselhado.
     
  • Dependendo do biótipo, da atividade física e condições associadas (incontinência urinária, por exemplo), a lavagem da região genital não deverá ser realizada mais do que uma ou duas vezes por dia. Atenção porque, em alguns casos, a mulher pode notar um cheiro anómalo proveniente da vagina e, por esse motivo, aumentar o número de lavagens. Mas, além de arriscar desenvolver quadros cutâneos, pode estar a deteriorar a flora vaginal e até a favorecer o agravamento do odor — aquando o uso de produtos alcalinos, ainda que perfumados, no caso de vaginose bacteriana.
     
  • O uso de soluções “específicas”, com um determinado pH, supostamente adequado a cada idade, também deve ser evitado. Trata-se de um mito. O pH da vulva varia significativamente menos do que o da vagina e é inferior ao do resto do corpo: não faz sentido a utilização de produtos e pH neutro ou alcalino.
     
  • O uso de penso diário deve ser abolido É uma causa comum de alterações dermatológicas (líquen simples crónico, dermatite irritativa).

A depilação integral tem riscos?

Aquando da realização da depilação, é importante ter cuidado com os cortes da pele, limpeza das lâminas, evitar queimaduras com cera quente, etc. E, no caso de patologia vulvar (dermatoses, infeções, dor, etc.) poderá ser prudente discutir com o médico qual o tipo de prática mais adequada. Depois, no dia a dia, não há qualquer recomendação específica.

A ausência de pilosidade tem impacto no prazer sexual?

A questão é complexa. Existem estudos associando maiores índices de satisfação sexual a mulheres que fazem depilação genital. Contudo, não se pode fazer a assunção direta de que a remoção do pelo aumente o prazer sexual – mais provavelmente, mulheres mais à-vontade com o seu corpo e sexualidade, mais jovens, envolvidas em relacionamentos, têm mais probabilidade de a praticar.

Nalgumas mulheres, o não ter a depilação do modo que consideram ser o adequado pode ser um fator inibidor da sexualidade. Não existe plausibilidade biológica para que a remoção do pelo aumente o prazer sexual; as estruturas vulvares mais sensíveis (clítoris e pequenos lábios) são desprovidas de pelo. Contrariamente à crença comum, são estas as áreas de maior sensibilidade e não o ponto G.

A depilação integral da zona íntima torna a mulher mais suscetível a infeções?

Tentar estabelecer uma relação direta entre a depilação genital e Infeções Sexualmente Transmissíveis (IST’s) é uma tarefa muito difícil – se não mesmo impossível. Em teoria, a remoção do pelo pode levar ao surgimento de microtraumatismos da pele que podem favorecer a aquisição de infeções (especialmente víricas).

Num estudo recente verificou-se, no caso de mulheres com depilação integral, um aumento da prevalência de infeção pelo vírus do papiloma humano, clamídia e herpes genital. Contudo, a metodologia do estudo é questionável e é importante sublinhar que encontrar associações estatísticas não traduz necessariamente uma relação causa-efeito...

Mulheres (ou homens) que façam depilação genital têm maior probabilidade de ser mais jovens e mais sexualmente ativos (frequência e/ou número de parceiros), o que é um fator de risco per se para a aquisição de ISTs. A única associação definitivamente comprovada entre a depilação púbica e ISTs é a diminuição da pediculose púbica (“chatos”).

Ainda que estatisticamente se possa considerar a depilação como um marcador de risco, é errado e preconceituoso fazer algum tipo de julgamento para a prática clínica. A depilação (ou a não depilação), ainda que opções ditadas por modas e por maior ou menor pressão externa, são uma forma de liberdade e de expressão sexual, que não pode de forma alguma ser julgada! Não havendo afeção cutânea (infeções, dermatoses), alguns casos de dor vulvar (vulvodinia), não há evidência para fazer recomendações num sentido ou noutro!

Em suma 

Nos últimos anos, o ideal de beleza em termos da genitália feminina tem sido apresentado (nos meios de comunicação, arte, etc.) como a ausência de pelo e pequenos lábios recobertos pelos grandes.

É normal, comum, que os pequenos lábios ultrapassem os grandes – e a ausência de pelo leva a uma melhor perceção das estruturas vulvares e a que algumas mulheres se sintam “anormais”.

Isso explica, em parte, a crescente demanda por cirurgia estética vulvar – por mulheres com genitais absolutamente normais, mas que se convencem ou são persuadidas que não o são. Esta é a maior complicação associável à depilação integral: ser um catalisador de cirurgias desnecessárias e não isentas de riscos.

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Colaboração

Dr. Pedro Vieira Baptista

Ginecologia e Obstetrícia
Hospital Lusíadas Porto, Hospital Lusíadas Lisboa
PT