Lusiadas.pt | Blog | Tendinite: o que é e como identificar
6 min

Tendinite: o que é e como identificar

Saiba como identificar a tendinite e o que fazer para prevenir o seu aparecimento. As explicações de Carla Afonso, coordenadora da Unidade de Medicina Física e de Reabilitação do Hospital Lusíadas Lisboa.

Há pessoas que chegam à consulta já com dificuldade em pegar na mala, outras que acordam à noite com dores. Há ainda quem já nem consiga estar duas horas a usar o teclado do computador “porque a dor está sempre lá a pulsar”, explica Carla Afonso, coordenadora da Unidade de Medicina Física e de Reabilitação do Hospital Lusíadas Lisboa. Neste artigo, Carla Afonso fala-nos sobre esta dor, que é a manifestação da tendinite, e o que fazer para evitar começar a viver-se “em função da dor”.

O que é a tendinite?

O tendão, que é a estrutura pela qual o músculo se insere no osso, é responsável por transmitir as forças dos músculos aos ossos. E em certas situações em que músculo e tendão são muito solicitados, por exemplo, pode desenvolver-se um processo inflamatório. “A tendinite será sempre uma inflamação do tendão”, explica a especialista Carla Afonso.

Causas 

Apesar de a tendinite poder ser causada por uma lesão súbita, é mais frequentemente a consequência da repetição de um certo movimento ao longo do tempo que solicita muito os tendões. Além dos gestos repetitivos, a idade é um fator de risco. “A própria idade leva à tendinose, à patologia degenerativa do próprio tendão”, explica Carla Afonso, acrescentando que “tal como as articulações, o tendão também vai envelhecendo e fica mais fraco e mais fino e as fibras não são tão fortes, tão brilhantes, ficam mais baças e mais laças”.

Em que zonas do corpo se desenvolve mais a tendinite

Os locais do corpo onde se fazem mais movimentos repetitivos, nomeadamente movimentos repetitivos do ombro, no rato, no teclado, são mais propensos a desenvolver tendinite, explica Carla Afonso, acrescentando, por isso, que em termos laborais, “é mais frequente [a tendinite] ser do membro superior”.

Aliás, o tipo de gestos associados ao trabalho de escritório tem vindo a ser responsável pela ocorrência de uma inflamação em particular: “Neste momento existe muita incidência de epicondilite, que é uma inflamação do tendão de inserção dos músculos que vão para o cotovelo, por causa destes movimentos repetitivos que se fazem durante as horas do trabalho”, acrescenta a especialista.

no caso dos atletas, acrescenta Carla Afonso, o que se verifica é a “inflamação do trocanter na inserção do músculo da corrida ou dos atletas que praticam muitos saltos e correm, a inflamação do tendão rotuliano”.

Sintomas da tendinite 

A tendinite manifesta-se por “uma dor fina, aguda, que não passa, piora à noite, e em que ao tentar movimentar-se a articulação em causa – ou seja, usar o músculo – a dor aumenta”, explica Carla Afonso. “É uma dor aguda. Não é uma dor tipo ‘moinha’. É uma dor forte que paralisa o movimento”, acrescenta.

No caso de o músculo e o tendão estarem a ser muito solicitados em consequência de tarefas repetitivas, as dores numa primeira fase são associadas à execução desse movimento. No entanto, se a atividade se mantiver, o quadro pode acentuar-se e a dor passará a manifestar-se também em repouso e poderá perturbar inclusivamente o sono, assinala a Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia.

Diagnóstico da tendinite

E atenção, que a tendinite se “manifesta por uma dor do tendão, no sítio onde se vai inserir”, o que significa que às vezes “a dor que se sente é no punho, mas a origem [da tendinite] é do cotovelo” por ser aí que o tendão se insere, alerta Carla Afonso. Além da dor, ao fazer-se o diagnóstico de tendinite é possível registar as características de uma inflamação, explica Carla Afonso. Ou seja, tumor, rubor, calor.

Tipos de tendinite

As tendinites agudas passam mais rapidamente se forem diagnosticadas precocemente, mas quando a dor é mantida por mais de três meses “é lida no nosso cérebro como uma dor crónica”, diz Carla Afonso. Nesse caso a pessoa “já não leva a sua vida normal e já faz coisas dependentes desta dor - ou seja, a pessoa começa a viver em função da dor.”

Prevenção da tendinite

Muitas vezes os movimentos repetitivos que podem vir a provocar o desenvolvimento de uma tendinite estão associados à atividade laboral da pessoa, pelo que esta não pode deixar de os fazer. Então, o que fazer para prevenir a inflamação? Leia os conselhos de Carla Afonso, coordenadora da Unidade de Medicina Física e de Reabilitação do Hospital Lusíadas Lisboa, para quem trabalha num escritório e usa de forma constante os computadores.

Melhorar a postura no trabalho

Uma postura incorreta durante o período do trabalho pode prejudicar o funcionamento dos tendões porque estes trabalham de forma irregular. O que deve fazer então?

  • Procure estar com a coluna vertical e os ombros para trás e para baixo;
  • Mantenha o monitor do computador ao nível dos olhos;
  • Procure ajustar a altura da cadeira de forma a que os pulsos e os antebraços estejam ao mesmo nível do teclado;
  • Os seus antebraços devem ficar perpendiculares ao corpo e, preferencialmente, apoiados nos braços da cadeira;
  • Os pés devem ficar bem apoiados no chão ou, se precisar, sobre um apoio. Não deve sentar-se de pernas cruzadas.

Ter um rato adaptado à mão (ergonómico)

É importante que ao pousar no rato o punho fique em situação neutra: “Ou seja, tem de ficar como se fosse uma régua”, explica Carla Afonso.

Usar um teclado ergonómico

“No caso do teclado é importante que a posição neutra parta do ombro. O ombro tem de estar numa posição neutra alinhada com o cotovelo; o antebraço tem de estar alinhado com o cotovelo também e, entre punho, cotovelo e ombro, faz 90º”, explica Carla Afonso. No caso de trabalhar com um computador portátil, em que o teclado está acoplado ao computador, a especialista aconselha o uso de um outro teclado “que esteja fora, que se possa adaptar ao portátil”. Depois, é importante que se eleve “o portátil nem que seja com revistas” para que o monitor fique colocado ao nível dos olhos. Caso contrário o que acontece é uma sobrecarga: uma “retificação da coluna cervical e, portanto, uma flexão da coluna cervical”, avisa Carla Afonso.

Fazer pausas regulares durante o dia

É preciso “saber que de hora em hora tem que se parar nem que seja um, dois minutos e alongar os músculos que se está a utilizar”, explica Carla Afonso, acrescentando que normalmente as pessoas não fazem estes períodos de pausa. E isso é importante para não sobrecarregar os músculos.

“A pessoa senta-se na cadeira, está mal sentada e aí fica durante quatro horas. Levanta-se, vai almoçar e só se levanta quando vai à casa de banho em períodos curtos e, portanto, existe uma sobrecarga da parte muscular”, avisa a especialista.

Praticar desporto

Aliado a um sedentarismo no local de trabalho, muitas vezes “não existe depois, em termos físicos, um equilíbrio muscular em que a pessoa pratique atividade física com a libertação das endorfinas”, alerta Carla Afonso, explicando por que razão é importante contrariar a pouca prática de exercício físico. É que as endorfinas, neurotransmissores produzidos pelo organismo em resposta a determinados estímulos e que são libertadas com o exercício físico, são vantajosas porque “vão trabalhar nas vias da dor, diminuindo a dor”, acrescenta a especialista. Aliás, as endorfinas são utilizadas em tratamentos de reabilitação na fisioterapia.

Controlar o stresse

Se uma pessoa tiver dificuldade em controlar a ansiedade ou a tensão – não fazendo exercício físico, por exemplo – cria-se um ciclo vicioso. “Em alturas de stresse piora mais ainda, porque em termos sensitivos agravamos muito mais a dor, ficamos muito mais tensos. Os músculos estão mais retraídos”, remata Carla Afonso. Uma pessoa que esteja sob stresse fica por isso mais propensa a desenvolver contraturas musculares, sendo que a fadiga prejudica também os tendões.

Tratamento da tendinite

O tratamento da tendinite depende da situação, explica Carla Afonso. Numa fase inicial passa por repouso articular – ou seja, parar de fazer os movimentos repetitivos a que a própria articulação está a ser submetida, ou o próprio músculo; medicar com analgésicos e anti-inflamatórios, sejam orais ou orais e tópicos (pomadas, gel, penso), que são tomados por um tempo limitado (cinco a sete dias). Depois a situação tem de ser reavaliada para se ver se a inflamação passou ou, no caso de não ter passado, se se terá que evoluir para exames mais específicos.

Ler mais sobre

Medicina do Trabalho

Este artigo foi útil?

We appreciate the feedback.

Please include your email if you want us to follow up with you.

Dra. Carla Afonso

Coordenador da Unidade de Medicina Física e de Reabilitação / Fisiatria

Medicina Física e de Reabilitação / Fisiatria
Hospital Lusíadas Lisboa
PT