Será que a nova pirâmide alimentar dos Estados Unidos da América é indicada para a população portuguesa?
Um dos pontos positivos é a ênfase na redução do consumo de alimentos ultraprocessados, como os refrigerantes e produtos de pastelaria. A literatura científica é consistente ao demonstrar o impacto negativo destes alimentos na saúde metabólica e cardiovascular.
A mensagem “Eat real food” é simples, eficaz e cientificamente fundamentada. Contudo, apesar destas novas recomendações nortes americanas defenderem a diminuição dos ultraprocessados, promovem simultaneamente um maior consumo de carne vermelha, laticínios gordos e outras fontes de gordura saturada. Esta orientação é incongruente com a própria recomendação dos EUA de limitar a ingestão de gordura saturada a 10% do valor energético diário. Por exemplo, para um adulto saudável que consome cerca de 2000 kcal/dia, tal corresponde a um máximo de 22 g de gordura saturada, objetivo difícil de cumprir com o padrão alimentar proposto.
Além disso, o incentivo ao aumento do consumo de carne vermelha contraria ainda décadas de investigação que associam o seu consumo excessivo a maior risco de doença cardiovascular, diabetes tipo 2 e determinados tipos de cancro, nomeadamente o colorretal. Não se trata de demonizar este alimento, mas de reconhecer que a sua valorização como base alimentar não é suportada pela evidência cientifica mais atual.
Outra orientação controversa é a normalização do uso de sal para temperar alimentos. Em países com elevada prevalência de hipertensão arterial, esta recomendação é particularmente imprudente. A evidência demonstra de forma consistente que o consumo excessivo de sal está associado a maior risco de doença cardiovascular — um desafio que Portugal também enfrenta. O consumo de sal deve ser limitado a um máximo de 5 gramas por dia para adultos (cerca de uma colher de chá rasa) e 3g para crianças
A nova faixa proteica recomendada (1,2 a 1,6 g/kg) não é desprovida de fundamento. Estudos recentes sugerem que 0,8 g/kg pode ser insuficiente para determinados grupos, como idosos. No entanto, generalizar 1,6 g/kg sem considerar idade, nível de atividade física ou condição clínica é cientificamente inadequado. Além disso, nos EUA o consumo médio já se aproxima de 1,3 g/kg, pelo que o impacto real desta recomendação será reduzido.
A colocação dos cereais integrais no vértice da pirâmide, sugerindo menor relevância, contraria evidência robusta que associa o seu consumo regular a menor risco cardiovascular e redução da mortalidade por todas as causas. Esta desvalorização pode induzir interpretações extremistas e reduzir injustificadamente a ingestão de um grupo alimentar com benefícios amplamente comprovados.
E no contexto português?
Portugal dispõe de um modelo alimentar próprio, cientificamente validado e culturalmente adequado: a Roda dos Alimentos Portuguesa. Este guia, amplamente utilizado em contexto clínico e educativo, assenta nos princípios da Dieta Mediterrânica - um dos padrões alimentares mais estudados e associados a benefícios como:
- menor risco de doença cardiovascular
- maior longevidade
- melhor controlo metabólico
- proteção contra doenças inflamatórias e neurodegenerativas
A Roda dos Alimentos promove equilíbrio, variedade e moderação, refletindo os hábitos e a cultura alimentar portuguesa, ao mesmo tempo que se apoia na evidência científica mais sólida. A nova pirâmide alimentar norte americana é inovadora e, em alguns aspetos, cientificamente fundamentada, mas apresenta inconsistências e potenciais riscos de interpretação. A sua adoção em Portugal seria inadequada. O modelo mais robusto e culturalmente ajustado continua a ser a Roda dos Alimentos baseada na Dieta Mediterrânica.
Este artigo foi útil?
Revisão Científica